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A transformação do homem pelo Teatro Oficina 

Por Gustavo Maia 

recomendadoteatro.jpg           No aquecimento dos atores, percebe-se de imediato que a peça será, no mínimo, marcante. Atrás dos portões que protegem a réplica recifense do Teatro Oficina Uzyna Uzona, o público – amontoado – é contagiado pelos gritos e exercícios vocálicos do elenco que ainda não pode ser visto, mas cuja presença é plenamente sentida. São 20h05 da quinta-feira, 20 de setembro de 2007. Do palco/corredor saem os atuadores de um dos grupos teatrais mais respeitados e controversos do país. Eles entoam os versos da cantiga Ciranda Cirandinha e logo convidam o público a entrar na roda. Já nesse momento inicial – principalmente para os que são tocados ou puxados por alguém do elenco –, é possível entrar no clima da peça. Começa assim a segunda parte de Os Sertões: O Homem I. 

o-homem-i-v2.jpg          Em mais de cinco horas de uma apresentação grandiosa e muito bem executada, são apresentados diversos temas, inclusive a formação do homem/povo brasileiro a partir de uma miscigenação entre índios, europeus e africanos. Na visão de Zé Celso Martinez – que reinterpreta a história oficial do Brasil em Os Sertões, com uma direção primorosa –, essa formação ocorre através do sexo tirânico. Muitas das cenas apresentadas chocam o espectador mais desavisado, pelo alto nível de erotismo, despudor e pela quebra de tabus. No espaço cênico, índios de Cabral, bandeirantes paulistas, holandeses, pernambucanos, Zumbi dos Palmares, jagunços, baianos e banqueiros se misturam numa verdadeira aula bem-humorada da colonização e formação do país.

           Ao contrário do que se pode pensar, a longa duração não é um martírio para a platéia – a coluna chega a reclamar, mas nada que seja insuportável – devido à agilidade da peça e dos mais de quarenta atores, que se revezam entre centenas de personagens e mostram seus dotes de canto, dança e atuação em cenas brilhantemente orquestradas. Muitas delas causam impacto pela grande beleza cênica. Outras pela relevância do tema e do texto, pois apesar de ser uma peça de época, apresenta questões bem atuais. Em vários momentos, o público é convidado a participar mais ativamente do espetáculo. Cenas coletivas em que os atores se misturam com a platéia são comuns: ora fazendo parte do coro, ora como protagonistas da ação. 

sertao40g.jpg           O duelo repentista entre nordestinos e sulistas – platéia e atuadores – foi um dos pontos altos do espetáculo e levou ao delírio quem teve a sorte de estar lá. A inserção de um hit do youtube na montagem é a prova de que Zé Celso é um dos artistas mais criativos e antenados do país: numa cena comanda pela competente Sylvia Prado, a bispa Insônia – numa engraçadíssima referência à Sônia Hernandes, uma das fundadoras da Igreja Renascer em Cristo – chama a menina pastora para pregar no palco. Uma das espectadoras se empolgou demais e foi exorcizada em cena. Eram raros os momentos em que não se tinha vontade de entrar no palco e participar dessa experiência única. 

           O Homem I, premiado como melhor espetáculo de 2003 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), é marcante em todos os aspectos. No final da peça, quando novamente se forma uma roda e todos cantam Ciranda Cirandinha, fica a certeza que o público presente saiu dali transformado. É como se todos estivessem ainda em transe diante de tanta entrega e apuro técnico. E estavam.   

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