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Toda nudez será abençoada 

Por Sofia Costa Rêgo 

recomendadoteatro.jpg          É difícil assistir ao Teatro Oficina sem mudar suas concepções a respeito das artes cênicas. Impossível ter a mesma visão de mundo depois de ver, ouvir e participar de Os Sertões. Em O Homem II, é encenado o nascimento de Antônio Conselheiro em meio à guerra das famílias Araújo e Maciel, sua peregrinação e a construção de Canudos. Numa releitura crítica e cômica da história, a peça mostra Zumbi dos Palmares, a princesa Isabel assinando a Lei Áurea – depois de queimar um baseado oferecido por um escravo – e a proclamação da República, representada por uma atriz vestindo as cores da bandeira francesa.

o-homem-ii.jpg           Euclides da Cunha depositava toda sua fé na República, até que ela se volta contra os sertanejos. Por onde passa, Antônio Maciel arrasta todo tipo de seguidor: beatas, jagunços, índios fugidos, quilombolas e insatisfeitos de todas as classes. Vai surgindo uma crença misteriosa “sem nome nem cara; nem socialista, nem capitalista; sem ista”. E essa crença começa a despertar a fúria da Igreja e do Governo quando Maciel e seus seguidores cometem o primeiro ato de desobediência civil: queimam as tabelas de impostos, vindas do Governo Federal. Nossa Senhora derrama lágrimas de sangue, anunciando a estação sangrenta que está por vir. Depois do duelo de cantadores em O Homem I, um desafio de capoeira é realizado para escolher os homens mais qualificados que irão proteger Conselheiro.

           Além do rico universo sertanejo da época de Canudos – com catimbozeiros, circo e a sempre presente seca –, Zé Celso ainda consegue transpor os Sertões para os dias atuais de maneira excepcional. Critica o grupo Silvio Santos por pretender “sufocar o Oficina como o exército sufocou Canudos”, satiriza Condoleezza Rice, a bispa “Insônia”, a menina pastora, Renan Calheiros, Rosinha Garotinho (Marli Rocinha) e nem o papa Bento XVI escapa. Em O Homem II, o Uzyna Uzona leva o público ao delírio com referências a Gandhi, “Glauber fé de Rocha”, Nietzsche, Jesus Judeu Palestino Crucificado e com uma homenagem a Chico Science que fez o público recifense vibrar. 

          Um dos ápices do terceiro dia de espetáculos foi o Dityrambo do amor livre, que chocou uma parte da platéia e fez com que outra entrasse bem no clima do Teatro Oficina. A princípio, causa um certo espanto porque – como diz Zé Celso – esse “amor livre é tabu, punido com morte no mundo patriarcal do Nordeste”. Na cerimônia do Beija Santos, os atores e o público se despem “das velhas vestes morais, longamente costuradas nos sertões patriarcais, e caem com Eva no hetairismo infrene do Apocalipse dos últimos dias do Homem”.

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sertao01g.jpg           É impossível não refletir sobre o conceito falso-moralista de amor, depois dessa celebração a Dionísio. Não é desse amor que trata Zé Celso, mas sim do “amor que é livre e grande demais para ser julgado por nós – pobres mortais”. A iconoclastia e a ideologia transgressora propostas pelo Teatro Oficina levam a perceber que a arte cênica vai muito além de montagens tradicionais, que o palco não precisa separar a platéia do elenco e que o público pode ser muito mais que um simples espectador.