O teatro surreal de Zé Celso
Por George Carvalho
Em sua viagem comemorativa de cinqüenta anos de existência, o Teatro Oficina Uzyna Uzona trouxe ao Recife o megaespetáculo Os Sertões: cinco dias de encenação – 19 a 23 de setembro de 2007 – em mais de 30 horas de peça. O livro celébre de Euclides da Cunha serve como mote para a maratona teatral que demorou seis anos para ficar pronta. No entanto, a obra literária serve apenas como meio para que o grupo comandado por José Celso Martinez Corrêa exponha toda uma ideologia que acompanha o Oficina nesses anos todos, e que já o é característica. Uma ideologia Antropofágyca que escancara a condição histórico-social de um Brasil que resiste a inúmeras adversidades, tal qual o Uzyna Uzona no seu cinqüentenário, instalado no bairro paulistano do Bixiga.
Para teatralizar a obra de Euclides, o Teatro Oficina produziu cinco peças: A Terra – ópera de carnaval onde o elenco encarna terra, vegetação, vento, seca, rio; O Homem I: do pré-homem a re-volta – trata da formação do povo brasileiro e suas misturas étnicas; O Homem II: do homem ao trans-homem – a partir da figura de Antônio Conselheiro é lançado o protótipo de um novo homem; A Luta I – mostra o início da Guerra de Canudos e as fracassadas expedições do governo ao tentar aniquilar o arraial no Sertão baiano; e, por fim, A Luta II – o desfecho do livro, com a morte de Conselheiro e a invasão da área de Canudos por doze mil soldados que compunham a quarta expedição do exército brasileiro ao arraial.
Despido de quaisquer pudores, o revolucionário Teatro Oficina apresenta um espetáculo fascinante. Corpos à mostra, textos inteligentes, marcações precisas, figurino deslumbrante e um elenco que dispensa comentários. Tudo isso com música executada ao vivo e uma projeção que traz imagens peculiares – algumas vezes indiscretas – do que é encenado. A platéia se envolve, é convidada a participar: compartilhar daquele êxtase. A interatividade e a dinâmica da montagem são fundamentais para fazer com que o público resista a quatro horas de encenação – tempo que durou a menor das cinco peças – num espaço fisicamente desconfortável. O esforço é válido diante da superprodução estética de Os Sertões e do cuidado cênico com que cada detalhe foi pensado. Esse cuidado está explícito no olhar do atores ao encarar o público e também na própria forma como o espetáculo é conduzido, com o maior aproveitamento possível do espaço.
A réplica do Teatro Oficina, montada ao lado do Armazém 14, no Recife Antigo, já indicava há dias a dimensão do que seria representado ali. Ainda assim, foi impossível não se emocionar com a magia transgressora de Os Sertões. Quem teve a oportunidade de assistir a algum dos espetáculos, não conseguirá livrar-se tão rápido do encanto ao qual foi submetido. Para os mais privilegiados e corajosos, que presenciaram toda a saga, um cansaço satisfatório e um sentimento nostálgico acompanhava o último dia de apresentação. O público, contrariado, voltaria para casa e para a luta cotidiana que o esperava na manhã seguinte. Enquanto isso, o Oficina Uzyna Uzona continua sua luta. E o próximo passo, seria transportar as cinco toneladas de equipamento e os dois mil e quinhentos figurinos para o Rio de Janeiro, onde o grupo faz duas apresentações do ciclo de montagens no mês de outubro. E olha que essa nem é a parte mais difícil da luta de Zé Celso e companhia…
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[A TERRA] A aridez e a vivacidade do Sertão
A encenação de A Terra começa do lado de fora do teatro, o elenco dançando e se misturando ao público, numa tentativa de estabelecer uma espécie de acordo tácito sobre o que estaria por vir. Olhar o público nos olhos, espectador por espectador, parecia ser uma das tarefas primordiais dos atores. O primeiro capítulo da obra de Euclides da Cunha é uma descrição meio técnica, meio poética, do que é o Sertão brasileiro. Na montagem do Oficina, até os dados técnicos destacados por Euclides viram poesia pura.
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[O HOMEM I] A transformação do homem pelo Teatro Oficina
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No aquecimento dos atores, percebe-se de imediato que a peça será, no mínimo, marcante. Atrás dos portões que protegem a réplica recifense do Teatro Oficina Uzyna Uzona, o público – amontoado – é contagiado pelos gritos e exercícios vocálicos do elenco que ainda não pode ser visto, mas cuja presença é plenamente sentida. São 20h05 da quinta-feira, 20 de setembro de 2007. Do palco/corredor saem os atuadores de um dos grupos teatrais mais respeitados e controversos do país.
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[O HOMEM II] Toda nudez será abençoada
É difícil assistir ao Teatro Oficina sem mudar suas concepções a respeito das artes cênicas. Impossível ter a mesma visão de mundo depois de ver, ouvir e participar de Os Sertões. Em O Homem II, é encenado o nascimento de Antônio Conselheiro em meio à guerra das famílias Araújo e Maciel, sua peregrinação e a construção de Canudos. Numa releitura crítica e cômica da história, a peça mostra Zumbi dos Palmares, a princesa Isabel assinando a Lei Áurea – depois de queimar um baseado oferecido por um escravo – e a proclamação da República, representada por uma atriz vestindo as cores da bandeira francesa.
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[A LUTA – PARTE I] O exército brasileiro contra as trincheiras do tesão
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Depois de três dias de desconstruções de tabus e conteúdo iconoclasta, tem início A Luta, terceira parte e a mais popular do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Envolvidos pelos espetáculos anteriores ou entrosados pelos comentários de amigos e críticas de jornais, uma platéia cheia de expectativas esgota os ingressos do sábado, 22 de setembro. A resistência de Canudos, um povoado à parte dentro do território brasileiro, passa a ser o foco da trama encenada pelo Oficina: dentro de um Estado republicano, uma monarquia dionisíaca – que segue o beato conselheiro como a um messias – se constitui e suscita o repúdio do governo e de outras instituições burguesas.
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[A LUTA – PARTE II] Resistência apoteótica
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Os atores descem correndo a rampa de acesso à réplica do Teatro Oficina, convocando todos à Guerra contra a monarquia canudense. Discursos exaltados de patriotismo e o exército brasileiro invade a encenação, fazendo os espectadores de reféns. “Mãos pra cima!”, bradam, enquanto o público vai se acomodando nas arquibancadas. Uma mulher que se recusa a obedecer às ordens é carregada para fora do teatro. O Hino Nacional é entoado. A última montagem da saga de Os Sertões, com o massacre do Arraial de Canudos, está começando.
Outubro 9, 2007 at 1:11 pm
Não fui ver a todos os espetáculos. Perdi os dois últimos porque precisei viajar para fora do estado.
O que eu vi, me impressionou bastante.
Incrível!
E parabéns à equipe do site: os textos estão muito bons!
Outubro 12, 2007 at 1:25 am
Escrevo do Rio de Janeiro, e acabo de assistir a toda a mandala de Os Sertoes. Inigualável, indescritível, digna de todos os méritos, comentários, críticas e descasos, pois isso é o Teatro Oficina, isso é arte. E não arte pura, pois arte por si mesma, se for pura, nao é arte; com o perdão da redundância. Poderemos falar e sempre teremos o que dizer, é um esgotamento do tempo e de tudo. Trazer para o foco de uma sociedade hipócrita que esquece e desvaloriza sua própria identidade, esquecendo em prateleiras obra como esta de Euclides da Cunha. Mais uma vez o Oficina mostra a possibilidade de reavaliar a atitude brasileria, colocando o público em tensão, ampliando a fissura criada diante de uma vista bitolada, e claro obsoleta, para com a política, a educação, diante da “identidade brasileira”.
A Luta pela sobrevivência individualista, da contemporeniedade, é massacrada, apresentando para o Homem num ritual dionisíaco, antropoágico, possível… Destruindo um tempo linear, e contruindo um tempo emaranhado de referências para a transformação, de uma Terra, há tanto tempo estuprada pelo seu filho mais amado!
É maravilhoso encontrar reflexões tão sinceras e empolgantes, num tempo tão virtual e distante como a internet. Parabéns pelo site e pelas críticas, isso sim é um comentario digno de valor. Espero que alguém do Oficina já tenha visto. Sucesso!!!
Dezembro 13, 2007 at 7:46 am
FUI ASSISITE AO ESPETACULO,NA CIDADE DE QUIXERAMOBIM,E SO TENHO QUE PARABENIZAR A TODOS QUE FAZEM PARTE DESSE ELENCO…FOI MUITO BOM ATE MESMO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CIDADE E PARA A CULTURA…PARABENS MAIS UMA VEZ!! SUCESSO…BEIJOS