
METALINGUAGEM…
Jorge Furtado explora em seu curta-metragem “Ilha das Flores” (Brasil, 1989) uma temática mais amarrada a informações – um tanto didáticas – e explora a miséria do ser-humano contradizendo-se ao título proposto. Mas em “Saneamento Básico” (Brasil, 2007), seu mais novo trabalho, a temática volta-se para o conceito sociedade-conscientização dos direitos e deveres enquanto morador de um determinado local (seria isso mesmo…?). Mas também pode-se dizer que o título não é a cópia fiel do desenvolvimento do longa-metragem.
Um filme construído a partir do incômodo dos moradores com uma fossa a ‘céu aberto’. A partir desse ponto, começa a luta dos moradores para conseguir que a prefeitura comece ou aprove as obras de saneamento da fossa da pequena vila. Tendo o projeto sido rejeitado, devido ao alto custo (“”) – e sendo essa uma necessidade antiga -, a subprefeita informa aos representantes da vila que há uma verba extra da prefeitura que, se não for aproveitada, a tal verba pode voltar para Brasília. E fala de um concurso de cinema. O melhor vídeo de ficção ganhará dez mil reais. Ou seja, o dinheiro que os moradores reivindicam para a obra de saneamento.
Sabendo disso, Marina (interpretada por Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (interpretado por Wagner Moura) – que no início reluta, mas acaba sendo convencido pela mulher – começam a mobilizar a família para, juntos, produzirem esse vídeo e ganharem o dinheiro da verba. Mas eles nem sabem o que é ficção (!). A procura pela definição da palavra se faz de forma retardada. Uma critica a disseminação das faculdades – de Administração! – (entenda-se: educação defasada) que não formam pessoas ‘cabeças’ ou que não possuem o mínimo de conhecimento possível para sobreviver no ‘mundo maior’. Ou ‘o mundo de possibilidades’ simplesmente não existe. Pelo menos é o que os diálogos referentes ao assunto nos fazem pensar. É uma relação de igualdade entre os ‘superiores’ e os ‘médios’. Até que um se sobressai. Em voga a alfabetização audiovisual, é isso…
Esse é o tipo de filme que foge aos ‘padrões’, digamos assim (pseudo-alternativo). O tratamento da imagem é diferente, os diálogos são mais comuns – é como se a câmera estivesse no dia-a-dia de uma família normal. Ou seja, parece não haver esforço pra dramatizar os fatos ao extremo. Pode-se dizer que ‘Saneamento Básico’ é uma piada sutil e ao mesmo tempo inteligente sobre a suposta defesa do cinema de iniciativa independente.
“O Monstro do Fosso” aparece como um filme do acaso. Construído a partir de um roteiro cheio de dificuldades (linguagem). Gente que não tem a menor idéia do que seja uma câmera… Com uma locação privilegiada pela localização da vila e meio que sem noção de montagem (o filme é gravado em ordem!) e com improvisação dos atores. Uma piada que dá certo. E o filme tosco é aplaudido pela comunidade.
Nessas observâncias, Saneamento Básico torna-se um assunto menor porque depois que houve o envolvimento de fato com a produção do filme tosco, as pessoas envolvidas só pensavam em crescimento pessoal. E foi deixado de lado o objetivo inicial que era a de construção da fossa da comunidade Linha Cristal. E o dinheiro para a construção da fossa!?…
Dezembro 19, 2007 at 1:59 pm
Olá, meu vício sobre no cinema me trouxe até este site, li esta reportagem sobre o flime saneamento básico, que gostei muito, bom saber que a opinião independente ainda resiste…
Tem algo que não me ficou claro – a parte em que nosso escritor cita que o flime é uma suposta defesa do cinema de iniciativa independente – pois não é verdade que no Brasil praticamente todas as iniciativas cinematográficas são independentes e sempre foram? Os produtores “nacionais” nunca dependeram de grandes empresas para organizarem seus filmes. Talvez este flime seja visto como independente por ser um dos únicos filmes recentes de genero cômico?? Será que estou certa. Pelomenos me fez rir muito.
Joanna