
Atos verbalizados
Por George Carvalho
Um cenário que poderia ser mais enxuto, trilha sonora sublime, iluminação competente, uma direção primorosa e quatro atrizes encenando textos de quatro autores diferentes. Uma jornalista bem-sucedida, uma mestra em Física, uma escritora e uma psicóloga ocupam o palco, sem necessariamente dividirem o mesmo espaço. Elas traz quatro mulheres com conflitos próprios, confinadas no quarto e confidenciando ao espectador suas dúvidas e motivações mais íntimas.
Chandelly Braz interpreta Carolina, a jornalista criada por Rosa Felix que se percebe abandonada pelas pessoas que mais ama – marido e filha – devido à prioridade dada ao exercício da profissão. Maria Odete Araújo defende Sofia, personagem de Pedro Felix: uma mestra em física que se apaixona pelo professor de graduação, concretiza esse romance durante o mestrado, mas tem dúvidas se sabe amar. A psicóloga de Moisés Neto é vivida por Laís Vieira: traída pelo namorado, Celeste não sabe se abandona a pessoa que lhe satisfaz ou algumas convenções, aceitando um relacionamento aberto. E há ainda a escritora Anne, brilhantemente vivida por Paulina Albuquerque. De Eduardo Matos, esse é o texto de maior carga dramática, abordando a complicada e intensa relação da personagem com o marido, o filho e o psicanalista, com quem tem um caso extraconjugal.
A direção apurada de Jorge Féo conseguiu reunir histórias tão distintas de forma harmoniosa, preservando as particularidades de cada uma e tendo como foco os conflitos vividos por cada protagonista. A direção musical de Henrique Macedo é decisiva nessa concepção. A todo o momento, o espectador está ouvindo os relatos das personagens – uma de cada vez, na maior parte do tempo – e, por vezes, a música adquire um status tal, que se torna indispensável à condução da(s) história(s). O início e o final da peça são marcados por um tom de série de TV americana que pontuou também a concepção estética do espetáculo, incluindo o material de divulgação. Apesar de parecer um tanto quanto pasteurizado, esse efeito clichê (se é que realmente o é, em termos de produção teatral no Recife) não desagrada.
Na interpretação, destaque para Chandelly Braz – que emociona na sua última cena (a do carro) – e Paulina Albuquerque. A personagem Sofia, mais insossa das quatro e cujo conflito se apresenta bem simplório, não permite um maior desenvolvimento de atuação por parte de Maria Odete Araújo. Já Laís Vieira não convence tanto no papel de Celeste, conferindo um tom disperso à personagem. Em termos de dramaturgia, Rosa Felix e Eduardo Matos realizam um trabalho louvável em Elas. Felix imprime um tom dramático ao texto de Carolina, questionando a relação corriqueira que se estabelece entre o pessoal e o profissional, de maneira extremamente atraente. E Matos consegue estabelecer uma relação de envolvimento com o espectador devido à tamanha densidade impregnada no monólogo de Anne, a qual é transmitida com maestria pela atriz.
A iluminação de Cleison Ramos não passa despercebida, apesar de poder contribuir melhor para o estabelecimento de um clima mais intimista – de conversa com o espelho mesmo – ao qual se propõe o espetáculo. Assim como o cenário, que poderia ser mais livre. Outros recursos da montagem poderiam ser dispensados, como a chegada com ares de equilibrista circense de Paulina Albuquerque, num determinado momento da peça, ou o musical protagonizado por Laís Vieira – cujo trabalho de voz é admirável – e acompanhado por passos de dança executados por Paulina e Odete Araújo à la nado sincronizado.
Não obstante sendo Elas um espetáculo no qual o discurso é valorizado ao extremo – a ação é limitada ao próprio falar –, é importante ressaltar o interesse que desperta no espectador, que até pode entediar-se em algum ponto da peça, mas não chega a se desinteressar pelos dramas retratados. E aqui, a utilização da música e o recurso das atrizes falarem textos distintos ao mesmo tempo são fundamentais para afastar a fadiga que, porventura, possa acometer alguém da platéia.
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ELAS – Em cartaz no Teatro Joaquim Cardozo, sábados de domingos de novembro às 20h.
Novembro 21, 2007 at 9:33 pm
Chandelly arrasou mesmo!
E adorei o “à la nado sincronizado”… KKKK
Pior que foi mesmo!!!