
DEMÔNIOS…
Os realizadores (os chamados gênios do Surrealismo) viam o movimento como uma arma revolucionária do pensamento e das atitudes na arte, na vida, na crença. O que é essa pregação de ‘mudar de vida’ para os Surrealistas? O que quer dizer transformar a ordem das coisas? Buscar novas formas de prazer? Um algo sobrenatural. Ver o mundo como algo irreal ou supra-real. Movendo céus e terra para realizar um desejo. A insubmissão das normas. É isso que propõe o filme de Jean-Claude Brisseau.
Os Anjos Exterminadores (Les Anges Exterminateurs, França, 2006) é uma análise da sexualidade feminina inspirado no Movimento Surrealista. Jean-Claude Brisseau inspira-se no Movimento para compor uma obra como ponte para o sobrenatural e tendo a sexualidade como algo a ser conquistado. Um lugar onde a razão desaparece dando lugar à paixão. As diversas formas que se apresenta a paixão: desnudada, desmascarada, sem preconceitos. O filme prega a loucura. Quanto mais desinibida e louca for a paixão, mais ela será bela. O prazer é mais importante do que a forma como se chega até ele. Anjos Exterminadores é um filme que tem como lema: ‘a sexualidade como algo a ser conquistado’. E é isso que o espectador ver ao longo do desenvolvimento da obra. Um pornográfico poético. Ou um lesbianismo experimental? Não. O filme assemelha-se ao cine prive, só que com conteúdo.
François (interpretado por Frádéric Van Den Driessche) é um cineasta que ousa filmar os desejos proibidos encarnando a sensibilidade feminina em diversos ângulos. Encarando a sexualidade como algo a ser superado. Todos os tabus quebrados. Para realizar o filme, François faz uma espécie de experimento. Ele entrevista as possíveis candidatas ao ‘papel’ e pede que elas encenem a parte mais complicada frente às câmeras: exibir seus desejos sexuais – primeiro individualmente; depois com outra mulher. É assim que é construída a idéia geral do filme e é assim que as atrizes são preparadas para a filmagem real do longa-metragem. Buscando as atrizes ideais para o filme, o diretor é posto diante de fatos inusitados e desafiadores. E ele se sai muito bem. Até que encontra o triângulo problemático e perfeito. As três mulheres que se dispõem a tudo e ficam fascinadas pela forma com que são conduzidas pelo diretor e encontra na ‘exposição’ uma forma de saborear novas sensações.
Anjos caídos que influenciam nas decisões e no destino dos personagens.O filme é um tanto místico. Mas aí entra uma das questões primordiais do Surrealismo: onde encontrar a magia e/ou o reencantamento do mundo sem o acesso à religião? Daí o filme responde: nos sonhos. É assim que François recebe a mensagem de que está trilhando um caminho errado. Mas para que dar ouvidos se o amor louco vai levá-lo à magia? Ao sucesso? Abstração da genialidade própria e dos outros.
Em determinados momentos (nos momentos críticos da vida de François) o narrador cita frases emblemáticas do Movimento Surrealista justificando a sua própria desgraça (desgraça que o personagem estava sendo submetido). As acusações, os escândalos, a prisão. Como se a sociedade não entendesse o real sentido da pureza humana. Ou da sensibilidade do sexo.