
Últimos e malfadados capítulos
Por George Carvalho
A distinção entre o espaço cênico e a platéia é bem pequena. Todos, elenco e espectadores, se concentram no palco. A disposição das cem cadeiras se dá ao redor do local usado para o desenrolar da ação. No entanto, a expectativa do público ao entrar e se deparar com algo tão pouco convencional acaba frustrada por uma leitura confusamente enfadonha, que ainda é prejudicada pelo tom baixo com o qual o texto traduzido de Jean-Luc Lagarce é transmitido pelo elenco.
História de Amor – últimos capítulos se passa em um não-lugar e trata da relação peculiar entre dois homens e uma mulher. O envolvimento desses personagens aparece de maneira pouco explícita na montagem do paulista Teatro da Vertigem. E até pode passar despercebida a história de amor que envolve um casal e um segundo homem, com quem ambos tiveram um caso. Abandonado, um desses homens relembra ou recria os fatos que os uniram e separaram. A distinção entre o que aconteceu e o que pode ter acontecido a esses personagens é bastante questionável.
Por se tratar de uma leitura cênica, o texto – disponibilizado em cada uma das cadeiras – pode ser acompanhado pelos espectadores. Mas, além da pouca luz no ambiente para uma visão adequada daquilo que está escrito, a proposta de acompanhar o que se diz acaba sendo abandonada pelo simples fato da maioria do público preferir ver o que está sendo encenado. Para os que não se enquadram nesse grupo, o roteiro serve como ponto de fuga, passando a ser folheado aleatoriamente quando o tédio se instala – algo bastante passível de ocorrer.
O ponto alto da montagem é o trabalho de iluminação assinado por Guilherme Bonfati. Os próprios atores comandam luz e sonoplastia. Na cenografia, uma mesa larga, cadeiras, uma escada que poderia ser dispensada e um cabide com algumas roupas. Este último é motivo de incógnita: era para estar mesmo lá ou esqueceram de tirá-lo do palco?
Apesar de algumas partes do texto se perderem devido à baixa entonação com a qual eram pronunciadas – mesmo com o profundo silêncio estabelecido –, o elenco é bem entrosado e não chega a decepcionar. A proposta do diretor Antônio Araújo, porém, é que se mostrou pouco convidativa e nada empolgante. A experiência parece mais válida para os atores do que para o público, o qual não compartilha das “emoções dos últimos capítulos” dessa história de amor. Por sinal, esta bem que podia ser menos lida e cenicamente melhor trabalhada.