CineCrôica Recomenda       Seis milhões de reais é um orçamento ínfimo no cinema hollywoodiano e geralmente resulta em obras de gosto duvidoso. Em terras brasileiras, a mesma quantia é suficiente para fazer uma grande obra, com um elenco de peso e sets de filmagens internacionais! A diferença exorbitante de destreza com pouco capital proporciona um não tão grande distanciamento qualitativo de um filme que facilmente representa a nova forma de fazer cinema no Brasil e é um dos primeiro produtos ‘tipo exportação’ de 2008.
       Em Meu Nome Não é Johnny, Mauro Lima dirige de forma a conduzir os focos e fatos sem castrar a liberdade expressiva de seus autores, sem apelar para o marketing da pornografia e fonia em abundância que tanto marcou o cinema nacional nas décadas passadas. Ainda assim, existe o apelo à recorrente temática das drogas (e seus efeitos, em geral, ‘comediatizados’) e abuso dos estereótipos de meu-nome-nao-e-johnny.jpgestilos e sons de uma sociedade jovem, com direito a gírias e entonações que, em certos momentos beiram o patético.
       João Estrella (Selton Mello) é um jovem de classe média que experimenta maconha ainda muito cedo e começa a encontrar no tráfico uma maneira de ganhar dinheiro fácil. Em uma de suas festas, regadas a álcool e cocaína, conhece Sofia (Cléo Pires), por quem se apaixona e casa. João começa a ampliar seus negócios com amigos e amigos de amigos, sempre partindo para novos clientes, até conhecer se envolver no tráfico internacional, com direito a 6kg de cocaína sendo transportados para a Europa sob paletós e negócios de milhões de reais.
       Em uma investida da polícia, João Estrella é preso e passa a responder por diversos crimes em juízo, avaliado de perto por uma juíza na mais clássica ‘linha-dura’ interpretada por Cássia Kiss. A trajetória do protagonista é permeada por coadjuvantes fracos, com exceção de alguns destaques que chegam a ofuscar o carisma de Selton Mello, como Eva Tudor, como uma traficante sexagenária, e alguns dos presos que o mesmo encontra na cadeia, que garantem boa parte das risadas relevantes do filme.
       Meu Nome Não É Johnny é baseado em eventos reais. Hoje, o verdadeiro João Estrella é cantor e compositor, vivendo em liberdade, talvez por isso a preocupação de Mauro Lima em representá-lo como um cara legal e simpático, sempre com uma tirada nova, provocando meios sorrisos. O grande problema da opção não seria o de contar sua história a partir do prisma de quem o personagem se tornou, mas ignorar uma realidade mais crua e violenta pela qual ele pode ter passado em seu passado negro.
Não há como antipatizar com um protagonista sempre engraçadinho e carinhoso. A audiência passa a torcer pelo traficante. Ainda que o diretor não fosse obrigado a ‘pintar o quadro’ de forma socialmente responsável, as nuances psicológicas de João Estrella apenas derrubam sua mácula quando, este, comete seus excessos de consumo de drogas ou de gastos. Por outro lado, sua esposa, que o trai enquanto cumpre pena, é marcada pelo estigma da mulher fútil e vadia desde o primeiro momento, em clara demonstração de uso de um único prisma narrativo.
       Apesar de suas falhas, o filme interessa pelo conteúdo de sua história e por seu belo trabalho técnico em roteiro e edição. A bela história é contada de um belo jeito, assim, o resultado não poderia ter um destino desagradável. O apelo bem-vindo à comicidade quebra momentos de tensão que possam se apresentar e o sarcasmo inteligente de João Estrella cativa o público desde os primeiros momentos de exibição, garantindo um bom entretenimento.

“Só tenho uma pergunta ao réu… O senhor trabalha?”
“…”
“Responda a pergunta. O senhor trabalha?”
“Não, senhora.”
“Então como você explica o apartamento próprio, automóvel, viagens à Europa?”

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