IndicadoAoOscar.jpg           Desejo e Reparação aparece nos cinemas como um suspiro de bom gosto e sensibilidade em meio à ganância dos blockbusters hollywoodianos. Romântico e cru, Atonement conta com platinados atores e a direção mais que competente de Joe Wright, não se desvencilhando do modelo Hollywood de fazer cinema, mas adaptando-o com um belo roteiro.
           A história conta como Briony Tallis interferiu diretamente no romance de sua irmã, Cecília (Keira Knightley) e o filho da governanta, Robbie Turner (James McAvoy), por quem também nutre uma paixão, ao acusá-lo de um estupro realizado nas imediações de sua casa. A acusação leva o rapaz à prisão, deixando de lado a universidade, e, então, à 2ª Guerra, passando cinco anos longe de atonement.jpgcasa.
           Se o ‘o que’ do filme pode ser considerado simples, seu ‘como’ eleva o nível da obra. A idéia de recomposição de mesmas cenas por diferentes ângulos trabalha minuciosamente a criação de maus entendidos ou como se opera a imaginação em uma mente ociosa. O trajeto linear do tempo não é abrupto, mas quebra os ideais apresentados, provocando, sempre, novos direcionamento na trama e no destino dos personagens, surpreendendo a audiência com novas e inesperadas informações à medida  que os créditos se aproximam.
           Modesto, delicado e custando apenas 35 milhões de dólares, Desejo e Reparação passa a figurar com rapidez a lista dos romances de época clássicos e eternizáveis, marcado, ainda, pelas belas atuações que lhe renderam diversas indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar. Com uma direção de arte e trilha sonora impecáveis, o tom de paixão e arrependimento que perpassa toda a obra fica evidente, amplificando totalmente o potencial de uma noite de sexo inconseqüente em 1935, que muda o curso de diversas pessoas.
           O figurino e a fotografia são shows à parte, devidamente reconhecidos pela Academia, não apenas por atribuir realidade à proposta, mas elevar os significantes de cada cena, representando muito mais do que uma época, mas traços perceptíveis de personalidades constantes e sofridas, muitas vezes impassíveis de mudanças.
           O diálogo direto com nossos tempos surpreende, tornando o clímax da obra ainda mais efetivo, sem perder, no entanto, sua impressão mais poética. Em um dos poucos títulos nacionais bem colocados, a idéia da ‘Reparação’ é totalmente explorada nos últimos minutos de exibição, sob um manto nostálgico que não adoça em demasia a obra, mas a torna amarga e emocionante como todo bom romance que se preze. Entretenimento certo.

“Você o viu?”
“Eu sei que foi ele.”
“Você sabe ou você o viu?”
“Eu o vi!”
“Você o viu com seus próprios olhos?”
“Eu sei que foi ele e eu o vi com meus próprios olhos!”