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Disparou?

Por George Carvalho

teatrologo.jpg             Trama policial envolvente, diretor renomado e um grupo de teatro aclamado pela crítica. O público que compareceu ao Teatro Santa Isabel no dia 21 de Janeiro tinha a certeza de que teria todas as suas expectativas superadas na montagem de A Ratoeira pelo Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP). Contudo, o que se viu foi uma trama envolvente, cenário e figurino apurados e a necessidade de um pouco mais de ensaio e entrosamento entre o elenco. O texto de Agatha Christie é encenado em Londres desde 1952 e conta a história de um jovem casal que transforma a própria casa, herança de família, numa pensão: a Monksweel Manor, na pequena cidade de Berkshire, arredores de Londres. A ação se desenvolve no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando uma tempestade de neve assola a região, deixando a casa completamente isolada. Assim, quatro hóspedes de reservas feitas chegam, com muito penar, ao local da ação. Além deles, há também um hóspede inesperado, cujo carro ficou atolado na neve, e um sargento de polícia, que vem para investigar um assassinato ocorrido em Londres no dia anterior e para evitar que outros crimes aconteçam, pois, de acordo com uma mensagem deixada pela pessoa criminosa, outros assassinatos podem acontecer justamente na pensão. O segundo assassinato se concretiza e todos os personagens passam a ser suspeitos.

Comemoração de 50 anos de encenação de 'A Ratoeira', em Londres.           A peça começa com uma projeção um tanto trash – e completamente desnecessária – da visão externa da mansão. Para o primeiro ato, o diretor Carlos Carvalho usou uma cortina branca semi-transparente na boca de cena. O intuito do diretor – alcançado e explicado depois, ao fim da peça, por Reinaldo de Oliveira – foi produzir um ar naturalista. Essa cortina tem um papel importante no final do primeiro ato, junto com a iluminação, quando se dá o assassinato de Mrs. Boyle. Este ato termina com os gritos de Renata Phaelante no papel da dona da pensão, Mrs. Ralston, logo após o assassinato da rabugenta Mrs. Boyle, privando os espectadores da presença cênica marcante de Geninha da Rosa Borges, que encerra sua participação na montagem depois de uma louvável interpretação. Merece destaque, também, Ricardo Mourão na pele do excêntrico Christopher Wren; junto com Geninha e Vanda Phaelante, que interpreta a mal-humorada Miss Casewell, estes são os que apresentaram melhor desempenho e maior entrosamento com o texto. Já Renata começa bem, mas, pela sua atuação no primeiro ato, esperava-se mais dela no segundo. A sonoplastia, de Armando Ferreira, é um espetáculo à parte. Apesar de alguns sopros de vento fora do tempo, ao se abrir janela ou porta, por exemplo, a trilha sonora que acompanha os momentos mais tensos do espetáculo é bastante envolvente. Saliente-se, aqui, o trabalho do violoncelista Fabiano Menezes para o decorrer da ação.

           Figurino e cenário de Marcondes Lima são impecáveis. E a iluminação desempenharia melhor sua função se os atores se distribuíssem no palco de modo a receberem o foco de luz durante algumas cenas segundo ato. A redução da luz quando Casewell está sozinha em cena cria uma enorme expectativa na platéia. A solução dos crimes é muito bem articulada no texto de Agatha Christie, que concatenou de forma primorosa as histórias dos diversos personagens na trama, proporcionando a motivação para os assassinatos. Porém, a última cena causa uma certa frustração ao espectador, que espera algo mais criativo da Dama do Suspense. Ao final da montagem, a impressão que se tem é que A Ratoeira não disparou! O texto pode funcionar muito bem na Inglaterra (tanto que está em cartaz há 55 anos!), mas os nomes dos personagens em inglês impedem uma imediata identificação da platéia, necessária quando se quer manter o espectador fixo na ação, imóvel na cadeira. Dessa forma, tal promessa não é plenamente cumprida.

          Além disso, o intervalo de dez minutos entre os atos, quebra o ritmo construído a tanto custo no primeiro ato. A trama volta morna, e a própria versão de “três ratos cegos”, canção infantil que permeia e assombra toda a trama, faz qualquer um bocejar! O ápice da peça, a “montagem da ratoeira” pelo sargento Trotter – não tão bem interpretado por Renato Phaelante – foi permeada por lapsos de texto, comprometendo significativamente o espetáculo do TAP. A montagem apresenta alguns erros que, certamente, serão corrigidos quando o espetáculo abrir temporada no Valdemar de Oliveira – a “casa” do TAP. Erros que até poderiam passar despercebidos, se não se tratasse de um grupo de teatro com tanto prestígio como o TAP. Ou, ainda, se o espetáculo não fosse a grande vedete da 13ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos. É esperar pra conferir!

A Ratoeira – em cartaz no Teatro Valdemar de Oliveira de sexta a domingo até o dia 14 de julho, sempre às 20h30.

Abaixo, trecho de uma outra montagem da mesma peça encenada por outro grupo de teatro. Só para dar um gostinho!