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O chá estava muito bom

Por George Carvalho

teatrologo.jpg      A Companhia do Latão comemora seus dez anos de existência com a peça O Círculo de Giz Caucasiano, escrita pelo alemão Bertolt Brecht entre 1944 e 1945 e traduzida para o português pelo pernambucano Manuel Bandeira. A longa montagem com três horas de duração, dirigida por Sérgio de Carvalho, mescla música e cinema numa concepção artística bastante interessante. O prólogo da peça, uma disputa amigável entre dois grupos de camponeses para decidirem quem deve ficar com a terra – o grupo de agricultores ou os antigos donos de rebanho que dali fugiram por causa da guerra – ganhou uma versão cinematográfica através de um documentário dirigido por Caetano Gotardo, Diogo Noventa e Marco Dutra que contou com a participação do Grupo Filhos da Mãe Terra do assentamento Carlos Lamarca.

          Definida a posse da terra para o grupo de agricultores que promoveu melhorias ao implantar um sistema de irrigação, os vitoriosos encenam a epopéia de Gruxa, interpretada por Helena Albergaria. Trata-se de uma empregada da família do gover-nador que salva o pequeno Miguel, filho deste e de sua esposa Natella (Deborah Lobo), após uma revolução que culminou com a deposição do Grão-duque e de todos os governadores aliados. Na fuga, a mãe do garoto acaba por esquecê-lo, mais preocupada com a bagagem e os ricos vestidos que estavam sendo guardados nas arcas. Não seguindo os conselhos para deixar o garoto, Gruxa resolve protegê-lo num esforço sobre-humano, sacrificando seu próprio amor por Simão Chachava, corajoso soldado interpretado por Rogério Bandeira que vai para a guerra não sem antes firmar casamento com a jovem empregada. Mas, por causa de Miguel, Gruxa é obrigada a casar-se.

Todo o elenco da montagem.        O casamento foi arranjado pelo irmão da nossa heroína, que não a recebe bem em sua casa: ele e a esposa não vêem com bons olhos o fato de uma moça sem marido já ter um filho. Gruxa casa-se então com um falso moribundo, não sem antes o pagamento por parte do seu irmão de uma alta quantia à mãe do noivo. O “doente” fingia tal condição para não ser convocado à guerra que assolava a região. Ao voltar da Guerra alheio aos percalços pelos quais passara Gruxa, Chachava encontra sua amada já casada e com um filho. No entanto, este passa a ser reclamado pela mãe verdadeira, uma vez que o herdeiro é fundamental para que esta possa reaver a herança do marido morto.

         Neste momento, há uma pausa de quinze minutos, quando é servido chá aos espectadores. A narrativa é bastante lenta. A trajetória de Gruxa com o pequeno Miguel, até chegar à casa de seu irmão, parece não ter fim. O elenco, muito afinado, canta além de interpretar. Outras vezes, descreve o acontece, como se lesse a marcação do texto, o que deixa a montagem ainda mais enfadonha. O trabalho musical de Martin Eikmeier é muito apurado e se destaca na montagem uma vez que é a música que instaura a narrativa da peça. Mas, ainda assim, não a deixa mais atrativa. A iluminação é primorosa e o cenário é bastante criativo. O figurino de Fábio Namatame – que também assina a confecção do cenário – é impecável.

Gruxa em primeiro plano, o irmão e a cunhada.          Ao recomeçar, o público passa a conhecer a história de Azdak, brilhantemente interpretado por Ney Piacentini. Azdak é o juiz a quem caberá a decisão da guarda de Miguel. Ele foi nomeado juiz em meio ao caos da guerra civil. Por ter abrigado em sua casa, por acaso, o Grão-duque, quando a ordem é restabelecida, Azdak é renomeado ao cargo por aquele a quem deu abrigo. Trata-se de um juiz protetor dos pobres, o que nem por isso o torna bondoso. Nem a própria Gruxa poderia ser definida dessa forma. Ela é uma moça ingênua que, diante da perspectiva da morte, opta pela vida.

           Para resolver o impasse da guarda do menino, Azdak desenha um círculo de giz no chão e determina que cada uma das supostas mães puxe o garoto, que se encontra ao centro, para si, até que saia do círculo. Trata-se se uma alusão à famosa história do Rei Salomão. Numa primeira tentativa, Natella vence, uma vez que Gruxa não puxa o garoto com medo de machucar-lhe a mão. O juiz determina, no entanto, que o teste seja refeito. Mais uma vez Gruxa desiste de disputar o garoto, com medo de machucá-lo. Azdak, então, defere sua sentença a favor de Gruxa, prevalecendo o “final feliz” e o sentimento maternal que a mãe biológica não demonstrou. Quanto à herança, o juiz determina que seja construído um parque infantil com o seu nome, em sua homenagem.

            A segunda parte da peça é um pouco mais ágil. O humor singelo, já presente na primeira parte, é mais recorrente, principalmente nos momentos finais, quando um casal de idosos vem pedir a separação após quarenta anos de vida conjugal porque “não vão um com a cara do outro”. Completando o “final feliz”, Azdak concede erroneamente a separação dirigida aos velhinhos para Gruxa e seu esposo que se passou por moribundo para não ir à guerra. Dessa forma, ela poderá casar-se com seu verdadeiro amor, Simão Chacava. Final bastante previsível!O mais interessante da montagem é, sem dúvida, o prólogo. Além de envolver uma questão social muito pertinente, a forma inovadora como foi concebida pela Companhia do Latão permite a discussão de um tema Natella e Gruxa disputam o menino, puxando-o para fora do circulo de giz.bastante atual. O elenco é muito bom. E os elementos do cenário, iluminação e a música são explorados com muita criatividade. Contudo, a narrativa arrastada e o longo tempo de duração, deixam o espetáculo bastante enfadonho. A atenção dispersa do espectador é inevitável em determinados trechos da peça. Faltou inovação à montagem! Esta só é vista mesmo no prólogo. Todavia o chá servido no intervalo estava muito bom…