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Perturbações de uma mente conturbada e insana… E só dela! 

Por George Carvalho 

teatrologo.jpg       Inspirada na obra 4.48 Psychoses, da atriz e dramaturga inglesa Sarah Kane, Wellington Júnior apresenta a montagem Psicoses, que descreve a paisagem interior de um suicida. O elenco – formado por ex-alunos do curso de  Teatro, Formação e Profissionalização de Atores do Sesc Piedade – apresenta com competência a última peça escrita por Sarah antes de se enforcar em 1999, com pouquíssimas alterações do texto original, o qual foi escrito durante as duas passagens da atriz por hospitais psiquiátricos. O texto é bastante denso e de uma profundidade psicológica desafiadora pra um elenco bastante jovem e advindo de uma turma recém-formada do referido curso de teatro. Apresentando uma narrativa fragmentada e não-linear, 4.48 Psychoses evidencia uma mente conturbada, depressiva e esquizofrênica à beira da loucura. Às 4h48 seria a hora em que a maioria dos suicídios acontece.

As perturbações de uma mente a beira da loucura           Psicoses começa já do lado de fora, quando o público, ainda na fila, presencia uma encenação de Ana Dulce Pacheco convidando o espectador a entrar no teatro. Lá dentro, muito recurso sonoro e uma voz que insiste em dizer “Eu sou Sarah Kane! Profanem o templo! Morte ao teatro! Matem os atores!”. Essa gravação, que vez por outra permeia a montagem, não faz parte do texto original e – diga-se de passagem – é completamente dispensável. O texto é uma poesia contemporânea sem nexo, de uma beleza intimista peculiar, a qual fica ofuscada pela concepção sonora de Dani Lee e pelo som altíssimo que se ouviu no Teatro Apolo na apresentação do grupo pelo Palco Giratório 2007.

          A iluminação apurada, uma parceria de Dani Lee e Nazaré Sodré, segue as conturbações do texto, que ora exige algo mais direcionado e sombrio, ora pede uma luz mais intensa. O figurino uniforme – composto por calça social e uma camisa branca de manga-comprida –, ao contrário da montagem como um todo, é pouco ousado, a não ser pela meia que os atores vestem na cabeça a maior parte do tempo, o que impede uma visão mais detalhada de seus rostos. A concepção cenográfica é bastante prática e bem original. Além disso, vale ressaltar a utilização igualmente original de um telão ao lado do palco onde a peça é exibida por um outro ângulo. Como também os elásticos que, em dois momentos da encenação – um mais contido, no canto do palco e com luz direcionada; e outro bem mais amplo, com movimentos que ocupam quase todo o espaço cênico –, formam uma teia nas atrizes enquanto estas interpretam o texto. E aqui merecem destaque as atuações de Nelma Barros – que protagoniza a cena mais contida – e Patrícia Moura – que cita o nome de vários remédios na cena mais ampla, e chega a cortar os cabelos em outro momento da peça.           

Nelma Barros em um ninho de elasticos          Psicoses traz alguns excessos, como a concepção sonora exagerada ou mesmo cenas de nudez sem um propósito aparente. Umas tiradas cômicas – poucas, mas presentes – também ficam sobrando na montagem, uma vez que divergem completamente da atmosfera psicológica depressiva construída ao longo da peça. O exagero na interpretação, no entanto – que faz até com que três atrizes invadam o espaço destinado à platéia – é louvável. As inquietações de um suicida esquizofrênico à beira da loucura, diante de uma paisagem extrema e implacável, não poderiam ser representadas de outra forma. Contudo, esse exagero não é uniforme, deixando a desejar por parte de alguns atores em determinados momentos da peça.

            A última cena é composta por uma bagunça propositada, na qual todo o elenco está presente em múltiplas interpretações, todas ao mesmo tempo. A peça está além de uma explicação e não poderia ser Patricia Moura em cena de Psicosesde outra forma, pois trata das perturbações de uma mente conturbada e insana. Entretanto, ao contrário do que se espera, essas perturbações não provocam no espectador a mesma sensação: este permanece alheio, acometido apenas por uma súbita curiosidade sobre o desfecho da peça desprovida de sentido. No final, os atores tiram a roupa e pulam do palco, consumando o suicídio perturbador que percorre todo o espetáculo. Eis o ponto-final.