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Uma gostosa comédia brilhantemente encenada 

Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          O texto não é dos melhores de Ariano Suassuna, mas a montagem da Theatros e Cia Produções Artísticas para As conchambranças de Quaderna é simplesmente encantadora. Cenário e figurino impecáveis, direção apuradade Marcos Portela e um elenco entrosado que até dispensa comentários, para evitar o lugar-comum de dizer que os atores estão maravilhosos. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna ou, simplesmente, Pedro Quaderna é rei e palhaço; astrólogo e charadista; escritor de folhetos, bibliotecário e dono de circo; intelectual, e pregador de uma fé católica sertaneja. Ele é isso tudo. E é também o grande conciliador dos problemas que aparecem em cada um dos três atos. 

          A montagem do grupo Theatros e Cia começa com um vídeo que mostra o elenco numa conversa com Ariano Suassuna em Taperoá. É o próprio Ariano quem se encarrega de explicar ao espectador uma sinopse da peça que em breve será encenada. E ouvir o mestre Ariano é sempre muito prazeroso! As histórias têm o tamanho ideal: são bem desenvolvidas, sem cansar o espectador. Impossível dizer qual a mais engraçada! O elenco parece se superar a cada ato, com destaque para Marcos Portela como o Juiz Rolando Sapo, Paulina Albuquerque como Mercedes e Caio César Viana, muito à vontade interpretando Quaderna. A iluminação de Josias Jordão se integra perfeitamente a cada momento da montagem. A cenografia é extraordinária. E merece destaque também a maquiagem dos atores, desenvolvida pelo próprio grupo.  

Dona Adelia (Paulina Albuquerque) e Carmelita, a Catarina (Rosa Felix). no terceiro ato da peca          Contudo, não é à toa que essa é a comédia menos encenada – e, portanto, menos conhecida – de Ariano Suassuna: inicialmente, a história não foi concebida para o teatro. Como afirma o próprio Ariano no documentário apresentado antes da montagem, As conchambranças é a adaptação de dois contos (textos em prosa) que seriam utilizados pelo autor como capítulos de uma trilogia inacabada (iniciada com o Romance d’A Pedra do Reino) e que foram aproveitados para os dois primeiros atos dessa peça, escrita em 1987. A esses dois atos, se juntou um terceiro, também adaptado: dessa vez de A Caseira e a Catarina, peça em um ato escrita por Suassuna em 1962.  

          Dessa forma, o que se vê em As conchambranças de Quaderna são três histórias completamente distintas, unidas única e exclusivamente pelo personagem que as conta e designa um papel decisivo para a resolução destas: Quaderna. Mas ele não é o personagem central dessas histórias. Quaderna está mais para a Compadecida, numa alusão à outra peça de Suassuna, buscando sempre a melhor saída para todos. A diferença fica por conta de uma dose de esperteza “grilense” (João Grilo, O Auto da Compadecida), uma astúcia sertaneja que lhe permite alguma notoriedade O advogado Ivo Beltrao (Jorge Feo) e sua cliente Dona Julia (Bruna do Valle)e lhe garante certas vantagens em relação ao emprego (no primeiro ato) e à bela Mercedes (no segundo). Os conchavos e as lembranças (conchambranças) desse personagem singular de Suassuna, narrador de A Pedra do Reino, apresentam o lado mais risível de Quaderna, numa comédia gostosa e brilhantemente encenada que resgata elementos típicos dos “causos” e das crenças populares do sertanejo. Uma montagem esplendorosa de um texto pouco conhecido (e nem tão esplendoroso assim) de um dos maiores dramaturgos brasileiros de todos os tempos!