teatroheader.jpg 

 

Dom Casmurro ainda mais admirável

Por George Carvalho

 

recomendadoteatro.jpg          Nunca foi tão gostoso ler Machado de Assis como assistindo à peça Capitu – Memória Editada do Grupo Delírio Cia de Teatro. A montagem paranaense, com direção de Edson Bueno, é uma adaptação da célebre obra Dom Casmurro, na qual Bentinho, já velho, faz um relato de sua infância e juventude, relembrando sua história com Capitu, seu primeiro e único amor. Foi com essa história que o grupo conquistou o troféu Gralha Azul do Centro Cultural Teatro Guaíra, principal prêmio de artes cênicas do Estado de Paraná, depois de participar, no ano passado, do Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba. Em 2007, a peça chegou ao Recife como parte da programação do Palco Giratório, festival nacional de teatro do Sesc.

 

A peça começa com uma mulher desmemoriada que, ao ler Dom Casmurro, vai se descobrindo a própria Capitu, uma personagem que só se fez conhecida através do relato de outrem. A adaptação apresenta um Machado fragmentado e o enredo de Dom Casmurro se mistura a tramas atuais. Dessa forma, Marcelo Rodrigues e Regina Bastos, além de interpretarem Bentinho Jovem e Dona Glória, também levam à cena o drama de uma mãe cujo filho – um jovem ator que está envolvido com uma montagem teatral de Dom Casmurro – saiu de casa e não mais a procurou; também Edson Bueno e Thiago Luz – respectivamente Bentinho Velho e Escobar – interpretam outros personagens. A única que se dedica integralmente ao personagem machadiano é Janja, atriz que interpreta Capitu, ainda assim uma desmemoriada no início da peça que vai se lembrando de si mesma aos poucos. Assim como no romance, verdade e mentira constituem uma linha tênue e nunca se estabelece a certeza das palavras ditas e das ações vivenciadas, o que fica claro com o “Isso não aconteceu!” e o “Isso sim aconteceu!” que o Bentinho Velho declara enquanto suas memórias são encenadas.

 

dom-casmurro.jpgA iluminação de Beto Bruel é espetacular. Como a peça se desenrola em diferentes tempos e espaços, a orientação do espectador é determinada através desse recurso que funciona numa harmonia perfeita com os demais elementos cênicos. Cenário e figurino estão em comum acordo com o texto encenado. No palco, cadeiras de época que poderiam muito bem ornamentar qualquer sala da atualidade e livros espalhados. Os quadros ao fundo ajudam a contar a história de Bentinho à medida que mais um é acrescentado à galeria pelos próprios personagens. Os atores são excelentes. Destacar algum deles seria até injusto com os demais. Contudo, impossível deixar de comentar a cena em que Edson Bueno interpreta o momento em que Bentinho pensa em se suicidar, colocando veneno da xícara de café, quando é interrompido por Ezequiel, filho de Capitu. Por um momento, Bentinho relata o ato de assassinato que cometeria contra o garoto, o que não passa de imaginação. É nesse momento que Capitu descobre a desconfiança do marido, que resulta na separação definitiva do casal.

 

Janja e Marcelo Rodrigues estão em perfeita sintonia interpretando os protagonistas quando crianças. A cena do beijo entre os dois jovens enquanto Bento penteia os cabelos da amada é tão brilhantemente conduzida e tão ingenuamente fiel ao relato machadiano que encanta qualquer espectador. Contudo, há que se fazer um ressalva quanto à cena do velório de Escobar, de onde se origina toda a desconfiança de Bentinho. A expressão facial de Janja não poderia ser melhor, mas a insistência de Edson no “Olhe de novo! Não reparou! Olhe outra vez!”, enquanto Regina Bastos e Marcelo Rodrigues se ocupam de ocultar e revelar o rosto em foco de Janja, torna a cena que marca o início da derrocada de Bento um tanto quanto cômica. Uma outra ressalva que deve ser feita é com relação às histórias atuais que concorrem paralelamente à narrativa machadiana: estas ficam sem desfecho. Os personagens secundários interpretados pelos atores em cena, à exceção de Janja, simplesmente desaparecem durante o desenrolar da ação.

 

capitu.jpgCapitu – Memória Editada é bastante fiel ao relato de Machado de Assis. A narrativa é ágil e não enfada em nenhum momento o espectador durante uma hora e meia de espetáculo. No entanto, ao contrário do que o título pareça revelar, também a Capitu da montagem do Grupo Delírio de Teatro não passa de uma personagem contada por outrem. Apesar do nome e do prólogo da peça – que deixam no espectador a sensação de que um “algo mais” está prestes a ser acrescentado à história dos olhos de ressaca –, no decorrer da trama, Capitu volta a ser apenas o primeiro e único amor de Bentinho, a mulher com olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Não que isso seja ruim. Afinal, a obra de Machado não carece, de forma alguma, de “algo mais”. Mas não há dúvida que isso causa uma pequena frustração no espectador que é levado a crer que a história será contada por uma nova vertente: a de Capitu. Nada que apague o brilho da adaptação, a qual impressiona pela coragem de trazer aos palcos de forma admirável um texto tão marcante como é o de Machado de Assis sem perder o tom original e com o cuidado teatral devido.