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Uma concepção não menos que extraordinária

 recomendadoteatro.jpg                                      Por George Carvalho

          A trágica história de Medéia foi reescrita por Chico Buarque e Paulo Pontes em 1975. O texto é encantador. E o espetáculo paulista da Companhia Breviário não pode ser classificado de outra forma. Sob a direção de Heron Coelho – responsável também pela adaptação do texto para esta montagem –, Gota d’água encanta pelo texto primoroso, pela vibração com a qual é encenado, pela brilhante execução das melodias, pela força interpretativa do elenco e pelo formato de arena sob o qual o drama de Joana é retratado. O espetáculo, montado em 20 dias, é uma versão mais enxuta: a peça dura mais de duas horas, mas o texto original, se encenado completo, poderia chegar a três horas e meia.

            Gota d’água é uma adaptação da peça grega Medéia, de Eurípedes. O drama da mulher traída que quer a todo custo vingar-se do ex-marido é transposto para a ambiência carioca. Dessa forma, a trama se desenrola com foco na tragédia urbana vivenciada por Joana – a Medéia brasileira – e Jasão, compositor de samba que após conseguir algum sucesso abandona a mulher – catorze anos mais velha e com a qual vivera durante dez – e os dois filhos para casar-se com Alma. Esta é filha de Creonte, empresário de Jasão e dono do conjunto habitacional onde vivem Joana, Mestre Egeu e companhia. A tragédia é constituída através das relações opressivas entre o mais forte e o mais fraco, representados respectivamente por Creonte e os moradores do conjunto habitacional; em última instância, Joana, traída e abandonada pelo homem que ama.

Uma das três conversas entre Jasão e Joana.         O envolvimento do público se dá já na entrada: a recepção é em meio a música, executada ao vivo por Alessandro Penezzi e Miró Parma, e dança. Os atores cantam no espaço cênico destinado à encenação enquanto dão as boas-vindas e indicam os lugares aos espectadores. Logo após, uma outra música é entoada: esta remete a ritos religiosos afros. Durante a peça, Joana invocará outras vezes os orixás, solicitando auxílio para execução de sua vingança. Além do aparato musical, merece destaque também a iluminação de Cibele Forjaz. Já a direção do primeiro – fundamental para o estabelecimento do ritmo – é assinada por Alessandro Penezzi. E esta é uma questão primordial: mesmo longa, a peça consegue manter o espectador o tempo todo atento, em grande parte graças aos recursos sonoros. Além das composições originais, cantadas pelo elenco, outras foram acrescidas – inclusive inéditas, compostas exclusivamente para esta montagem.

         O formato de arena é o grande trunfo do espetáculo co-dirigido por Heron Coelho e Georgette Fadel, que também interpreta Joana. O espectador tem a possibilidade de acompanhar de perto as ações humanamente intensas da protagonista e os diálogos marcantes que trava com seu ex-esposo, vivido por Cristiano Tomiossi. Outro diálogo que merece destaque é o que se dá entre Creonte, de Alexandre Krug, e Joana, quando esta pede ao empresário mais um dia para mudar-se do conjunto habitacional onde mora: enquanto dialogam, os atores se movimentam em círculo no espaço cênico destinado à representação, sempre um em oposição ao outro. O tempo pedido é para que seu plano de vingança seja posto em prática. Nesse meio tempo, Joana finge perdoar Jasão e tenta envenenar Alma na festa de casamento. Diante da frustração de não ter conseguido matar a rival, a forma encontrada para se vingar do ex-marido e matar os próprios filhos.

Jasão e Joana: Cristiano Tomiossi e Georgette Fadel.          Georgette é magnífica na interpretação de uma mulher amargurada e abandonada, porém forte, que caracteriza o personagem central da trama. Sua atuação é constante e não deixa a desejar em nenhum momento da peça. Quanto ao Jasão de Cristiano Tomiossi, falta-lhe um pouco mais de presença cênica. Sua interpretação é boa, mas não tão intensa quanto às dos demais atores, os quais permanecem no espaço cênico a maior parte do tempo. Em algumas cenas, Cristiano se sobressai – como quando senta na cadeira, ao propor sociedade a Creonte, ou em no primeiro diálogo com Joana – mas em outras, sua interpretação simplória deixa o espectador um pouco decepcionado – como no diálogo com Mestre Egeu e no último encontro com a ex-esposa.

A última cena, do envenenamento, é extremamente emocionante, em grande parte pela atuação admirável de Georgette. Os recursos cênicos de música e iluminação são brilhantemente arquitetados pra dar o tom de gran finalle. E mesmo após duas horas e meia nada enfadonhas de espetáculo, o público aplaude demoradamente e de pé, sem nenhuma menção de querer ir embora. Muito pelo contrário: a sensação é de bis e não seria nada espantoso se os espectadores sentassem e esperassem para ver novamente o que acabara de ser apresentado. Gota d’água, mais de trinta anos depois de escrita, ainda consegue emocionar pela atualidade com a qual aborda a problemática social. Além disso, o tom extremamente dramático da versão grega é amenizado por um humor negro presente na versão brasileira. Um texto competente e uma concepção não menos que extraordinária para retratar uma história que data da invenção do teatro!