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Que ironia!

Por George Carvalho

teatrologo.jpg Hesitei em escrever algo sobre a peça que esteve em cartaz no Teatro da UFPE nos dias 9 e 10 de março de 2007. O motivo da hesitação não foi outro senão o receio de constranger os bons espetáculos aqui já comentados e outros, também muito bons, já vistos, cujos comentários faltam ser escritos. Ópera é um deles! (Pretendo fazê-lo em breve) Mas, enfim, vencida a hesitação e pedindo desculpas àqueles que proporcionaram os espetáculos já citados, aqui está Namoradinha do Brasil, texto de Fernando Ceylão, que também dirige a montagem.

Bárbara Borges e Suzana Vieira vivem filha em mãe em Namoradinha do Brasil..A peça mostra a relação entre Ragilda e sua filha Viviane, interpretadas por Suzana Vieira e Bárbara Borges. A mãe quer, a todo custo, que a filha seja famosa e não mede esforços para alcançar seu objetivo, chegando ao cúmulo de escolher o namorado da filha – um ator famoso – e plantar notas na imprensa a respeito do relacionamento. Dividindo o mesmo quarto num humilde apartamento, a Ragilda pouco importa se o seu sonho de ver a filha na novela das oito é compartilhado por Viviane ou, ainda, se esta tem talento para tanto. A temática dos pais que projetam o futuro profissional dos filhos sem respeitar as escolhas destes – ou sem mesmo ouvi-las – é relevante e deve ser alvo de reflexão. Contudo, o texto apresentado é tão pobre, que não causa outra sensação aos espectadores senão tédio, impedindo qualquer reflexão diferente de “o que foi que eu vim fazer aqui?!” ou algo do tipo.

Repetitiva e enfadonha, a peça não apresenta nenhuma evolução. Nem o recurso utilizado de diálogo com o público – quando Viviane conta algumas passagens ­–, o qual poderia trazer dinamicidade ao texto, é capaz de dar ritmo à montagem, tornando a peça ainda mais cansativa. A inserção de momentos dramáticos – como a morte da mãe de Ragilda ou a lembrança da sua separação, com direito a mãe e filha abraçadas na calçada – diverge do restante da peça. Há apenas um momento que foge aos adjetivos aqui empregados: quando Bárbara Borges representa um trecho de Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. A ex-paquita surpreende ao tornar cômico um texto denso como é o de Nelson. Uma iniciativa bastante ousada do autor, mas não o suficiente para salvar a peça!

O elenco, apesar de televisivo e fazer uso de microfone, não chega a decepcionar. Pelo contrário, como já foi registrado no parágrafo anterior. Mas houve momentos em que não foi possível ouvir o que era dito, mesmo com a utilização dos microfones, muito mal localizados nas roupas das atrizes. Só foi possível ouvir bem o que era dito em cena quando mãe e filha estavam bem próximas – pois uma utilizava o aparelho da outra e vice-versa ­– e sempre que Suzana ajeitava os cabelos nas trocas de roupa, forçando-a a baixar a cabeça, o que aproximava sua boca do microfone.

Viviane e RagildaPara completar, a luz não funcionou bem no primeiro dia. Por várias vezes, Viviane compartilhou seus anseios com o público sem a devida iluminação. Nestes momentos, Bárbara Borges se aproximava da platéia, saindo da parte do palco onde estava montado o cenário, precisando de um foco de luz que não veio. No segundo dia, foi a sonoplastia que deixou a desejar, sendo alvo das críticas de Suzana Vieira no final da montagem. Ela também não se esquivou em reclamar do mau comportamento do público – bem mais numeroso que no dia anterior ­– diante da demora para iniciar a peça.

Namoradinha do Brasil, ao contrário do que título ironicamente expressa, não cativa, atrai, agrada ou torna qualquer um enamorado. Encantam sim, a beleza e a simpatia de Bárbara Borges e o bom-humor de Suzana Vieira nos agradecimentos e no trato com o público ao final da apresentação. Mas não é disso que se compõe um bom espetáculo!