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Peculiar e arrebatador

Por George Carvalho

recomendadoteatro.jpg          O espetáculo que marcou o início do Coletivo Angu de Teatro volta em cartaz em maio e junho de 2007 no Teatro do Parque. O texto marcante de Marcelino Freire ganha contornos teatrais num espetáculo multimídia que envolve vídeo e música. Sob a direção do competente Marcondes Lima, o elenco – não menos competente – apresenta dez quadros distintos, monólogos interligados por cenas de passagem em que os atores cantam trilha sonora original de Henrique Macedo. A peça começa com cinco zumbis que surgem de sacos plásticos dispostos no palco desde a entrada do público. A partir daí, a realidade das grandes cidades passa a ser contada de maneira emocionante e questionadora.

Capa do livro Angu de Sangue, de Marcelino Freire.          Os textos – a maior parte do livro homônimo de Marcelino Freire – foram levados ao palco sem nenhuma adaptação. Hermila Guedes, por exemplo, canta na íntegra o conto Socorrinho, no qual uma menina é seqüestrada e violentada, enquanto Fábio Caio conduz harmoniosamente uma boneca de madeira que interpreta os movimentos da garota. Os atores desfilam os tipos urbanos que interpretam por um tapete vermelho e a caracterização exacerbada, quase caricatural desses tipos é perfeita. Fábio Caio impressiona saindo de uma geladeira que serve de moradia a uma catadora de lixo da Muribeca e Gheuza Sena causa um desconforto súbito na platéia que lhe assiste em Darluz interpretando tão maravilhosamente lúcida o drama insano de uma mãe que, por falta de condições, é obrigada a se desfazer dos filhos assim que estes nascem. E o desconforto não é menor quando Ivo Barreto traz ao palco o “miolo do Angu”: a história pulsante de um assassinato revivida por um homem à beira da loucura. Há ainda o humor sarcástico de uma manicure tagarela e um gay saudosista, interpretados respectivamente por Gheuza Sena e André Brasileiro.

          A iluminação de Jathyles Miranda funciona harmoniosamente com os demais elementos cênicos, contribuindo decisivamente para a tônica do espetáculo, o que fica claro durante as encenações de Darluz e Angu de Sangue (o “miolo”), quando a iluminação parece estar ainda mais apurada. Cenário, figurino e maquiagem são de Marcondes Lima, o diretor da montagem. Duas cortinas vermelhas integram o cenário, tudo envolto em uma grande lona preta. Outros elementos utilizados como cenário são trazidos pelo próprio elenco durante as passagens cantadas de uma história para outra.

Gheuza Sena interpretando a manicure atendendo um cliente.          A peça termina com uma platéia mal-educada, formada pelos cinco atores, assistindo a um filme no qual um homossexual é ferido e morre por falta de socorro. Da mesma forma que os personagens do filme passam alheios pela rua, sem se darem conta do ferido que agoniza, a platéia – ora, nós mesmos! – assiste a todo o caos urbano do dia-a-dia sem que o perceba. Está tudo tão massificado, tão comum que só causa espanto quando retratado de forma teatral, a priori algo que deveria apenas entreter.

          Angu de Sangue é um espetáculo completo. Com temática forte e direção arrojada, a montagem é tão incrivelmente vibrante que prende completamente a atenção do espectador, deixando-o estagnado. Por mostrar – com alguns toques de humor – uma realidade social crua e áspera, causa um certo incômodo. Não pelo que é apresentado – uma vez que as histórias encenadas podem ser vistas com facilidade pelas ruas de qualquer cidade –, mas pela peculiaridade com a qual é feita. Dessa forma, Angu é a verdadeira representação da catarse que os gregos, criadores do teatro, tanto buscavam, a qual não pode ser descrita, mas apenas sentida ao término do espetáculo.