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Texto primoroso, espetáculo encantador

Por George Carvalho

recomendadoteatro.jpg          Há quinze anos a Dramart Produções leva à cena o espetáculo O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A montagem volta em cartaz neste mês de Maio no Teatro do Parque. Desde a estréia em 1992 no Valdemar de Oliveira, dirigida por Marco Camarotti, foram poucas as mudanças no elenco e muitos os espectadores – mais de 280 mil – que se divertiram e se encantaram com as peripécias de João Grilo e Chicó no teatro. A esperteza e as crenças do povo nordestino são retratadas por Ariano Suassuna nessa história inusitada, na qual o autor utiliza até elementos circenses para contar a história de um homem que morre e volta a viver por intermédio de Nossa Senhora – a Compadecida.

O Sacristao e o Cangaceiro na montagem de O Auto da Compadecida          A história se passa numa cidadezinha onde a maior autoridade é o Major Antônio Moraes, o qual representa o resquício do coronelismo nordestino, a quem se curvam a política, os sacerdotes e a gente miúda. A igreja também exerce lá sua influência, nunca maior que a influência do Major. Um palhaço – interpretado por Hélio Rodrigues – faz às vezes do autor e vai interligando os atos da peça. Além do Padre João, do bispo, do frade, do sacristão (o “núcleo” religioso da cidadezinha, concentrados em torno da cobiça) e do Major, também habitam a cidade o padeiro corno e sua mulher, o esperto João Grilo (Sóstenes Vidal) e o medroso Chicó (Williams Santana). Ainda integram a montagem dois cangaceiros – que dizimam a população local, à exceção de Chicó e do frade (porque matar essa ordem religiosa dá azar) –, dois diabos, um Jesus moreno e a Compadecida, vivida por Socorro Rapôso, que também defendeu o papel na primeira montagem do texto de Ariano em 1956.

Williams Santana interpreta o medroso Chico          O cenário é simples, composto basicamente por um painel onde se vê a representação de uma igreja e o sol escaldante do Sertão. O figurino retrata bem os tipos de Ariano: roupa de linho para o Major e suspensórios para o esperto e pobre João Grilo – destaque para a caracterização dos diabos, travestidos de vaqueiros com máscaras. O trabalho de iluminação integra os demais elementos cênicos harmoniosamente. Assim como o acompanhamento musical, executado ao vivo por músicos no canto do palco. O elenco é afinadíssimo, com destaque para Leidson Ferraz no papel duplo do frade e de um dos capetas. Socorro Rapôso dispensa comentários no papel da Compadecida. Contudo, o uso do microfone na hora do julgamento parece acomodar a capacidade vocal da atriz e do ator que interpreta Jesus. O alcance do microfone não é tão bom e quando esses atores se afastam do “altar” onde o recurso funciona bem, quase não se ouve o que dizem. 

          O Auto da Compadecida é um espetáculo primoroso. Encanta pela magia circense, pelo acompanhamento musical, pela ingenuidade com a qual a história é contada. Não é à toa que há quinze anos vem sendo encenado por todo o Brasil pela Dramart Produções. Só um bom espetáculo consegue permanecer por tanto tempo em cartaz e lotar os teatros onde se apresenta, como aconteceu na última apresentação do grupo no Teatro Santa Isabel, em março.