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Intenso e angustiante 

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          A montagem comemorativa dos 15 anos do Grupo Cênico Calabouço une de forma subjetiva dois autores contemporâneos: a ucraniana – naturalizada brasileira – Clarice Lispector e o irlandês Samuel Beckett. A primeira surpreende pelo estilo solto, elíptico e fragmentário de escrever e pela problemática de caráter existencial presente em sua obra; já Beckett é considerado um dos principais autores do teatro do absurdo, que utiliza elementos chocantes do ilógico para a criação do enredo, das personagens e do diálogo, com o objetivo de reproduzir diretamente o desatino e a falta de soluções em que estão imersos o homem e a sociedade. O texto, adaptado por Breno Fittipaldi e Wellington Júnior, privilegia o que há de angustiante na obra dos dois escritores. Aliada a interpretação sublime e a execução de uma trilha sonora que não podia ser mais acertada, a peça provoca uma perplexidade intensa – digna dos autores cuja união o grupo se propõe realizar – e deixa um gostinho de “quero mais”. 

A primeira parte explora o universo de Samuel Beckett          A primeira parte da montagem – dedicada a Beckett – explora os textos Improviso de Ohio e À espera de Godot, apresentando o conflito de dois seres que, de tanto se amarem, resolvem se separar. Os dois personagens, bastante parecidos, protagonizam uma relação peculiar que vai sendo desvendada aos poucos através dos sentimentos de um deles. Há também a figura de Beckett, interpretado por Wellington Júnior, que exerce um certo controle sobre a ação. A sintonia entre os elementos cênicos é perfeita, o que contribui de maneira decisiva para que a carga dramática da encenação ultrapasse o palco e chegue até a platéia. 

          Num segundo momento, Beckett dá lugar à sutileza de movimentos de Clarice Lispector e à aflição sempre atual do que fazer com a própria vida. Lispector se multiplica no palco, podendo ser vista sob três nuances: ora poética, ora áspera, ora malévola. Em comum, apresentam insatisfações e dúvidas existenciais. Com movimentos harmoniosos de encher os olhos, os três atores se “transformam” na escritora, preenchendo quase todo o espaço cênico com os lençóis e mantas que usam como saia e xale. O trabalho de iluminação, primoroso na primeira parte do espetáculo, ganha contornos ainda mais louváveis. Destaque também para a brilhante interpretação de José Manoel.  

Na segunda parte da montagem, Jose Manoel interpreta Lispector          Com direção de Breno Fittipaldi, completam o elenco de Beckett and Lispector Nelson Lafaeytte, Hypólito Patzdorf e Will Cruz. Os dois textos já tinham sido encenados separadamente no Festival Curta Cena em 2005 (Beckett) e 2006 (Lispector). A temporada no Teatro Joaquim Cardoso no mês de maio teve casa cheia todos os finais de semana. Aliás, o aconchegante teatro – com capacidade para algo em torno de 50 pessoas – contribui decisivamente para imprimir a relação palco x platéia que o texto exige. Parece até que o espetáculo foi concebido para esse local (ou vice-versa), tamanha é a interação espaço x montagem, a qual deve ser preservada se o grupo quiser levar a peça a outros palcos recifenses. Mas seja no Joaquim Cardoso ou em outro teatro, é torcer para que Beckett and Lispector possa voltar em cartaz o mais rápido possível.