ESTÔMAGO E SEXO?

 

          Com um cenário constituído por locações mundanas e desejos irrealizáveis, o “Amarelo Manga”, primeiro longa do diretor Cláudio Assis, se destacou nas telonas e ganhou diversos prêmios. Fórum melhor filme em Berum 2003, no Festival de Brasília ganhou melhor filme, montagem, fotografia, crítica e público. Plural em particularidades, o filme nos apresenta personagens rudes e embrutecidos pelo meio. Mundos fechados e umas Pernambuco cru, sem regras e ditames, que se apresenta como o ‘caos’ dos excluídos onde se forma os grandes bolsões. Os moradores que se confundem com os atores. Ou se fundem com os mesmos até serem desmascaradoss os falsos moralismos, o homossexualismo, o tédio, a bestialidade e a psicose de personagens que se transformam protagonistas-mor da história.

           “O ser humano é estômago e sexo”. É com essa afirmativa que procuramos o indicativo do que Cláudio Assis (cineasta pernambucano) quer passar em seus filmes de temática “cão” e de personagens problemáticos, encurralados pela pobreza e pelo desgaste e falta de perspectiva de uma vida desesperançosa. E é com uma abordagem clara, objetiva e dinâmica, além de completamente engessada, que nos é apresentado o Baixio das Bestas. Com temas diversificados e mesclados pela crueza e escancaramento de cenas, o filme aborda com mestria temas considerados “desconfortáveis”. A mulher como objeto de desejo e que, ao mesmo tempo, sonha com a possibilidade de sair de uma vida desregrada e sem um lugar fixo. Em outro ponto, a mesquinhez e a pureza degradada pelo quase incesto e pela baixeza daquele que queria ser o mais correto dos senhores – a velhice degradada, a ambição condicionada pelo meio.

          Masturbação, estupro, espancamento de mulheres e a tentativa de crescimento por intermédio da arte – é o sonho de ser reconhecido pelos moradores da cidade (Recife). Todos esses aspectos são abordados ao longo das projeções de forma consistente que, em um dado momento, temos a impressão que os cenários são os mesmos. Ou que todos os personagens fazem parte de uma mesma comunidade. Tal qual é a forma com que as idéias são conduzidas. Com uma fotografia não menos considerada que a do Amarelo Manga, Baixio das Bestas simplesmente nos apresenta ao mundo de contrastes sociais e de mobilidade limitada. Limitada àqueles que tem maiores possibilidades de estudar na cidade e tem melhores condições de vida – como os agroboys. Desses personagens vem todo o desenvolvimento da (s) história (s) e grande parte dos conflitos existentes ao longo da projeção.

          Os atores fazem, com maestria, atuações excepcionais. Como é o caso do Mateus Nachtergaele que desempenha, com maestria, seu papel de homem bruto, corrompido e amante da prostituição. Outra interpretação excepcional é a do ator Caio Blatt e da atriz Dira Paes que faz uma aparição muito plausível ao longo da projeção. E em sua etréia, a atriz Mariah Teixeira (Auxiliadora) que com seus gestos, sorrisos de aceitação e olhares de ingenuidade e, ao mesmo tempo, perdidos, envolve e completa as demais atuações.

         Baixio das Bestas é um filme que tem uma boa direção de fotografia (Walter Carvalho), um referencial de tempo inteligente – a plantação de cana e sua posterior destruição pela queima em massa. E o povo do Baixio continua bestializado e sem perspectiva. E uma abordagem de temas diversos e projeção inegavelmente digna. 

“Não há honra que não seja ferida, nem moral que não se acabe”

“Ta sentindo um cheiro estranho? É a podridão do mundo…”

“A pobreza é que nem um câncer, quando vê já pegou em tudo… no pulmão…”

“Cortar cana é um trabalho agora, ficar fazendo palhaçada por aí…”

“Sabe qual é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer tudo”