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Uma lona superficial 

Por George Carvalho

teatrologo.jpg           O jogo de intrigas por trás do picadeiro é o tema da peça O Grande Circo Místico, baseada no poema homônimo de Jorge de Lima. Escrita por Geane de Oliveira e com direção da jovem Nina Wicks, a montagem recifense encanta pela concepção visual e pela atmosfera que constrói antes mesmo do início do espetáculo propriamente dito, através de música, incenso e performances circenses já do lado de fora do teatro. Contudo, os dramas apresentados são desenvolvidos de maneira bastante superficial. As próprias motivações que levam os personagens a agirem desta ou daquela maneira chegam ao público – embora não sejam – com contornos demasiadamente simplórios.

           Em busca de liberdade, Frederico (Leandro Rebello) chega ao circo do tirano e ambicioso Oto (Jones Melo), que obrigou a esposa a abandonar a carreira de contorcionista e agora casa a filha forçada com o trapezista Ludwig, brilhantemente interpretado por Thomás Aquino. Rejeitado pela esposa, Ludwig perde o equilíbrio e cai do trapézio. Sua morte é, sem dúvida, o ponto alto da montagem: texto e concepção visual são harmoniosamente encantadores nessa seqüência. Nada harmonioso, porém, é ouvir o sotaque ora espanhol, ora paulista que Jones Melo empresta a Oto.

Elenco da peca que traz as intrigas por tras do picadeiro           A chegada de Frederico ganha dimensões tão extraordinárias nas palavras da vidente Charlote que frustra o espectador sua participação tão pequena – quase nenhuma – no desenrolar da história. Quem faz acontecer mesmo é a Bailarina, a grande responsável por instigar os conflitos entre os habitantes da lona do circo. Todo o auê da vidente se justifica pelo fato do garoto assumir o circo no final da montagem, depois de uma passagem de tempo que em nada esclarece acerca do destino de personagens como Oto, sua filha Margarete ou sua esposa Lily (Maria Oliveira), que quase passa despercebida.

            Saulo Ambrósio está excelente como Ícaro, o pássaro que permeia a montagem com  reflexões sábias e pertinentes sobre o que se desenrola na trama. Contudo, a máscara compromete o bom entendimento do texto primoroso desse personagem. Nada que a utilização de um microfone no bico não pudesse resolver. Destaque também para as atuações de Paulina e Rosa Félix, como a malvada Bailarina e a sofrida Margarete. Do mesmo modo, Suzana Costa dá um show no papel de Charlote.

           O cenário é simples, com uma parte mais alta ao fundo do palco, onde fica montada a tenda da vidente Charlote e onde acontece a maioria das performances de Ícaro. O figurino de Xuruca Pacheco se encaixa com perfeição à montagem – à exceção do figurino Village People de Rutilio de Oliveira como o domador Rudolf – e a iluminação de Cussy de Almeida e Nadjackson é primorosa. Nina e Ademir assinam o excelente trabalho de sonoplastia: a trilha celta é simplesmente encantadora! Vale ressaltar também o trabalho de Ronaldo Aguiar, responsável pela estética circense do espetáculo.

Saulo Ambrosio e Suzana Costa           O Grande Circo Místico apresenta muitas lacunas. Não é um espetáculo redondo, fechado. Mas é de um encanto singular pela magia do circo colocada no palco e pelo esmero estético que apresenta. O cuidado com o texto também transparece na montagem. Entretanto, por apresentar tramas e personagens extremamente ricos e nenhum destes como protagonista – uma vez que o próprio circo desempenha esse papel –, a trama acaba perdendo força e também um pouco do brilho uma vez que o “personagem circo” não se apresenta forte o suficiente para desempenhar o papel que lhe cabe. O que resta, acaba se tornando genérico demais. Afinal, um palhaço deve ter muitos outros motivos para ser triste além do fato de ter que trabalhar muito numa lona de circo…