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La chair bon marche c’est la chair noir?

           Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          O carnaval é marca internacional do Brasil. Nessa época, o Recife pára e se rende à folia de Momo. Nega Preta é mais uma foliã animada com as promessas de diversão que essa festa pode trazer. A carne mais barata – monólogo escrito, dirigido e encenado por Vavá Schön-Paulino – apresenta os encontros e desencontros dessa brasileira nos dias de carnaval na capital pernambucana. No sábado de Zé Pereira, ela vai ao Galo da Madrugada; no domingo, ao desfile de caboclinhos; e na segunda, à Noite dos Tambores Silenciosos. Sempre em busca do seu namorado. Diante da frustração de não encontrá-lo, Nega Preta cai na folia na terça-feira. 

          A performance se desenvolve com números de canto, dança e representação. A miscigenação do Nordeste brasileiro se faz presente no espetáculo. A montagem começa com Nega Preta trazendo uma oferenda para Exu. Durante o espetáculo, ela também canta brega, dança caboclinho e fala francês. Um dos pontos altos é o momento em que a personagem promove o leilão de uma das suas fantasias, interagindo com a platéia enquanto se despe. Vavá Schön-Paulino dá um show. Não só nessa parte, mas em toda condução do espetáculo. 

a-carne-mais-barata.jpg          No palco, apenas um microfone e o figurino excepcional de Henrique Celibi que é trocado às vistas do espectador. A iluminação harmoniosa de Tiago Catarino e a sonoplastia do próprio Vavá funcionam com maestria. No entanto, a disposição das cadeiras no Teatro Hermilo, na apresentação pela comemoração dos cem anos do frevo, em 1º de julho de 2007, prejudicou a visão da platéia. Foi engraçado ver as pessoas se levantando para ver algumas partes da performance de Nega Preta. O atraso de meia hora para o início da apresentação também foi outro fator que incomodou. Pelo menos, a espera valeu a pena!

           É interessante observar como Vavá Paulino constrói o espetáculo, que ganha ritmo aos poucos. Uma espécie de aquecimento, um exercício corporal logo após a entrada com a oferenda de Exu, cria uma expectativa absurda na platéia. Essa expectativa, contudo, esvai-se diante da demora e da repetição dos movimentos. Nega Preta se apresenta ao público, situando a ação no período carnavalesco. Mas não há nenhuma referência mais concreta quanto à personagem. Sabe-se apenas que ela tem um namorado e que espera encontrá-lo para brincarem juntos o carnaval. 

          Durante o depoimento de Nega sobre suas expectativas e frustrações com relação ao festejo de Momo, a cultura carnavalesca pernambucana vai sendo revelada. E a origem de Preta permanece oculta. O próprio Vavá questiona o fato da personagem saber falar francês e brinca com isso em determinado momento da peça. Mas nada disso importa, pois é carnaval. Nessa festa, o que vale é a diversão, a euforia. E a personagem de Vavá Paulino encarna bem esse estado de suspensão que acomete a maioria dos brasileiros nessa época do ano.

carne.jpg          Só o título da peça não se enquadra bem nessa concepção. A referência sobre a carne mais barata é a carne negra (la chair bon marché c’est la chair noir) – frase repetida algumas vezes pelo ator – fica deslocada. A montagem não aborda diferença racial, como essa citação parece suscitar. No carnaval, as diferenças sociais, raciais, sexuais ficam de fora. “Todas as carnes” são baratas nesse período. Ou pelo menos, custam o mesmo preço. A própria personagem criada por Vavá Paulino pode ser vista como uma típica brasileira, resultado das influências mil que compõem o nosso povo.