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“PARA SUBIR NA VIDA É PRECISO PASSAR POR PROVAS

cultrecomenda.jpg          Completamente desequilibrado e febril. Assim chega aos cinemas o filme de Domingos de Oliveira. Um início com cara de documentário. E uma defesa ao cinema de boa qualidade e baixo orçamento. O cinema da simplicidade. “Carreiras” (Brasil, 2005) responde com uma boa produção, datada e contextualizada até a última gota. Como numa urgência e uma necessidade desesperada de ser digerido.

           Com um discurso político claro, Carreiras é um filme dinâmico e proporcional aos “diálogos de uma frase”. A verdade é que esse filme é feito de frases prontas. Uma seqüência de frases. Um monólogo descontrolado. E, claro, uma atuação excepcional carregada de um realismo exacerbado e uma força admirável na construção de uma personagem que não admite ser rebaixada para o posto de “pasquim de quinta”. Assim é a força e a contestação de Ana Laura  (Priscilla Rosembaum), que após ser trocada do posto de âncora por uma pessoa mais jovem entra em total desequilíbrio emocional. Um dia de euforia ou melhor, de loucuras resultantes do inconformismo de estar “cobrindo” apenas pequenos trabalhos.

           Após perder o seu posto, Ana Laura quer por ‘fogo’ em tudo – consciente do seu potencial, ela acaba por criticar o ‘sistema’. “Palavra comum essa: sistema…”  E o deixa do “quem manda em quem” no meio televisivo. Inspirado no livro “Corpo a Corpo” de Oduvaldo Viana que por sinal é a contextualização da arte com a política. Esse filme evidencia o drama de Ana Laura. Álcool e carreiras de cocaína. 

carreiras01.jpg          Carreiras é a análise de “partes” em detrimento do todo. É a síntese de uma personagem em detrimento do coletivo. Ana Laura só enxerga o seu “meio”, as suas pretensões, os seus pormenores. O ‘drama’ dessa personagem vai de encontro com uma sociedade que reprime atos que são contrários à ordem.

           Esse filme só mostra que na sociedade é preciso enquadrar-se. Ela nos cobra isso. Daí a inicial recusa, o delírio de Ana Laura de acabar com o sistema. Mas que, no fim das contas, ela acaba cedendo. Afinal, ela vai estar no topo. Vai estar exatamente onde ela merece: na escala maior do jornalismo. O drama que por um momento fez a personagem lembrar-se da família.  Momentos de pura fragilidade. A mãe que precisa se tratar. A irmã que havia se separado do marido. A avó que já está cansada dos problemas e o tio que morrera sem que ela desse conta do fato. Mas isso é vão. Bastou um telefone e Ana Laura está lá no topo. “Eu quero estar exatamente onde mereço”. Já não importa os problemas familiares.

           Ana Laura não tem saída. As armas que ela tem (até mesmo o possível “livro” que ela pretende lançar contando a história da hierarquia televisiva (“os podres”), faz parte do “ser” social. É ela enquanto pessoa. As suas crises, as suas críticas ao “tudo em família” no jornalismo não passam de um momento de avaliação da sua própria personalidade. Mas Ana Laura não é julgada por ter tomado a decisão de aliar-se ao “sistema”. Ela fez o que a seu ver era o melhor.

           Esse filme é um poço de criatividade. E, visualmente falando, é singular. “Ana Laura: bêbada, drogada e estirada na calçada do Leblon”. Essa imagem é belíssima. Um negativo. Foto-criatividade.  Esse é o filme que preza pelo valor da imagem. Valor da palavra. Além de ser o que representa a democratização da cinematografia. Sendo produzido e distribuído digitalmente. Boa produção e baixo orçamento e uma carreira de ‘pó’.