teatroheader.jpg

Aquém da grandeza de Nelson Rodrigues

 Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          O Grupo de Teatro João Teimoso tenta seguir à risca o texto de Nelson Rodrigues na montagem de Os Sete Gatinhos. Para contar a história de uma família onde quatro filhas se prostituem com o consentimento dos pais para educar e preservar a filha mais jovem, o diretor Oséas Borba utilizou um boneco representando Seu Noronha, o chefe da família, cujos movimentos são sempre conduzidos por duas atrizes que interpretam alguma de suas filhas.

         Os Sete Gatinhos é uma das chamadas tragédias cariocas da obra rodrigueana. No primeiro ato – o único a se passar fora da casa da Família Noronha – os limites físicos do teatro são desprezados e o público é apresentado ao personagem chave responsável pelo desencadeamento de toda trama: Bibelot, um homem que dá sorte com as mulheres, está sempre de terno branco e carrega um revólver porque uma vez lhe disseram que seria assassinado por uma prostituta. Aqui, ele é apresentado como um cliente de Aurora, a filha mais velha; o homem por quem ela se apaixona e com o qual passa a se relacionar, mesmo sabendo que ele está apaixonado por uma jovem de 16 anos e é casado com uma mulher doente, à beira da morte.

os-sete-gatinhos.jpg          A partir do segundo ato, começa o desmoronamento da Família Noronha, que vai culminar com o assassinato do seu patriarca pelas próprias filhas. A ousadia de usar um boneco no papel do Seu Noronha, na montagem do Grupo João Teimoso, apresentou um ponto de vista peculiar acerca do personagem: ele passou a ser, literalmente, manipulado pelas filhas. Na verdade, ele é o grande responsável pela perdição da própria família; o destruidor do seio familiar que ele mesmo construiu.

          A trama gira em torno de Silene (e sua virgindade), a filha caçula e esperança de redenção da família. Uma garota mimada e a razão pela qual as quatro irmãs se prostituem: elas buscam dinheiro para manter Silene no colégio interno e preparar-lhe o enxoval. Contudo, a casta menina aparece grávida. Ela é expulsa do colégio por matar a pauladas uma gata – a qual era muito apegada – quando descobre que o animal está prenha. Trata-se de uma auto-preservação: Silene desconta no bicho a raiva que sente de si mesma. Um sentimento dúbio – já que se refere ao pai do seu filho com ar doce – que poderia ter sido mais explorado na montagem do João Teimoso. Mesmo morta, a gata pariu sete gatinhos: vivos e perfeitos.

          O triângulo amoroso, um dos elementos surpresa que Nelson utiliza na construção desta trama, se faz presente quando Aurora descobre que o pai do filho de Silene é Bibelot, seu amante. Ao tentar descobrir quem desgraçara a honra da irmã caçula, com o intuito de providenciar sua morte – ela assegura ao pai que, atendendo a um pedido seu, Bibelot mataria o responsável pela gravidez de Silene –, Aurora e o próprio espectador percebem que as duas irmãs estão apaixonadas pelo mesmo homem. O interessante é que nesse triângulo, ao contrário de tantos outros escritos pelo autor, nenhum dos três personagens se dá conta da relação triangular.

          Através de um texto completamente articulado, com elementos surpresas que são entendidos ao final dos três atos da peça – o triângulo amoroso é um desses elementos – , Nelson Rodrigues discute o mito da virgindade e as condições de sobrevivência no sistema capitalista, que faz com que a Família Noronha se agarre a valores distorcidos. O tom fatalista de tragédia grega nessa obra rodrigueana é explícito através e algumas falas dos personagens e do elemento espírita presente na peça.

           Uma das filhas de Seu Noronha é médium e recebe o fantasma do primo Alípio. As revelações feitas pelo fantasma podem ser vistas como uma releitura dos presságios presentes nas tragédias gregas através dos oráculos. É como se os personagens de Os Sete Gatinhos estivessem predestinados a cumprir os seus destinos tal qual Édipo estava a matar seu pai e casar-se com sua mãe. 

gatinhos.jpg         A montagem pernambucana do Grupo de Teatro João Teimoso, no entanto, não faz jus à grandeza do texto rodrigueano. Cenário, figurino e iluminação funcionam perfeitamente. Mas a escolha da trilha sonora e algumas interpretações ficaram muito aquém. A execução da música tema de The Phantom of the Opera num momento de mediunidade, em que o espírito do primo Alísio é mencionado, soou cômico e desconexo. O elenco masculino impressiona pela falta de expressão. O melhor ator do grupo é o que aparece menos, no papel do representante do colégio interno no qual Silene estuda, encarregado de trazê-la de volta para casa. Já entre as personagens femininas, a atriz que interpreta Aurora é brilhante, inclusive na condução do boneco de Seu Noronha, se sobressaindo no nível mediano do restante das atrizes.

          Quanto à utilização do boneco, que causou até uma pequena polêmica no dia da estréia, a idéia foi bastante original e representou uma opção em destacar um ponto de vista do diretor da peça, segundo o qual o personagem de Seu Noronha é manipulado, sendo portanto um boneco nas mãos das filhas. Uma concepção interessante, que suscita uma boa discussão e que funcionou muito bem no palco, apesar do som alto e destoante da voz do personagem. Outro destaque da montagem é a falsa ingenuidade de Silene, que aparece brincando de modelar no início e no final da peça. Os gestos da menina são bastante sugestivos nesses dois momentos e são desenvolvidos de forma plena pela jovem atriz.

          Abaixo, a primeira cena da peça numa outra montagem, assinada pelo diretor Francisco de Assis com os atores Flavio Barollo no papel de Bibelot e Bibi Cavalcante como Aurora. Vale a pena conferir!

.