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A simplicidade poética de Guimarães

 Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg           Inspirado no livro Primeiras Estórias de Guimarães Rosa, o grupo de teatro bainao Vilavox montou um espetáculo surpreendente e fascinante. Canteiros de Rosa traz três histórias distintas que têm como característica comum o fato de serem protagonizadas por personagens que estão à margem da sociedade. Assim como nos contos originais, a adaptação teatral da diretora Jacyan Castilho não apresenta um final para cada um deles, cabendo ao espectador interpretá-los. Os diferentes tons presentes na obra do escritor mineiro – o cômico e o trágico, o patético e o lírico, o erudito e o popular – foram adaptados para o teatro de forma magnífica no texto de Gordo Neto.

elenco.jpg          Cenário e figurino são exuberantes. O primeiro é composto basicamente por armações gigantescas que são usadas em reformas. Essas armações se transformam em trem, árvore, curral… Uma lona amarela e relógios pendurados ao redor do espaço cênico – em formato de arena – completam a paisagem. O figurino é discreto, sem exageros. A interpretação impecável e o texto bem cuidado completam o encantamento ao qual o espectador é conduzido ao longo da peça.

          A primeira história é baseada no conto Sorôco, sua mãe, sua filha e aborda a solidariedade de uma cidadezinha sem nome pelo drama de Sôroco, um homem que sempre cuidara da mãe e da filha, ambas loucas, e agora se vê obrigado a mandá-las ao manicômio. Um trem aguarda a chegada das duas doentes para conduzi-las até Barbacena. A teatralização do trem pelo Vilavox é simplesmente fantástica. A montagem inicia justamente com a chegada do veículo por trás de um dos lados da platéia. A sonoridade é o ponto alto dessa primeira história.

            A temática da insanidade é apresentada de maneira mais cômica na segunda história, do conto Darandina. Ao escapar de uma perseguição, um homem distinto e bem vestido escala uma árvore. Uma multidão curiosa acompanha atentamente os esforços de autoridades para fazê-lo descer, questionando quem seria o tal sujeito. Com um discurso filosófico e desconexo, ele leva a multidão à loucura ao tirar toda a roupa. Um médico é chamado para tentar estabelecer um diálogo com o suposto louco. Mas, ao constatar que o homem voltara ao seu juízo perfeito, inclusive pedindo por socorro, a multidão – ludibriada e não aceitando essa repentina normalidade – se dispõe a linchá-lo em público. Percebendo o risco, o personagem brilhantemente interpretado por Cláudio Machado – que apresenta uma disposição física e um equilíbrio invejáveis – faz um novo discurso. Liberté, egalité, fraternité – berra o homem: motivo suficiente para ser ovacionado pela multidão.

          A última parte é a mais poética, baseada no conto A menina e lá. Com dotes paranormais, Nhinhinha consegue realizar todos os seus desejos, por mais estranhos que sejam. Os pais fazem segredo sobre a paranormalidade da filha, a qual acaba sendo descoberta apesar do isolamento em que vivem. A iluminação de Fábio Espírito Santo fica ainda mais apurado nessa história, assim como a trilha musical assinada por Gordo Neto e Jarbas Bittencourt. Ao pedir um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites brilhantes, a menina profetiza a própria morte e ninguém percebe esse seu desejo.

007.jpg           De forma encantadora, o espetáculo do Grupo Vilavox chega ao fim. A sensação que acompanha o espectador ao deixar o teatro é um misto de fascinação e vislumbre pela qualidade cênica e pela emoção que causa. Canteiros de Rosa permite, assim, uma vasta reflexão acerca das coisas simples e corriqueiras, tal qual o livro de Guimarães. São histórias aparentemente banais, que tratam da simplicidade da vida e da poesia presente nesses fatos corriqueiros.