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REALIDADE E ARTIFÍCIO  

cultrecomenda.jpg          Não é à-toa que John Cassavetes é considerado o ‘pai’ do Cinema Independente. Seus filmes são conhecidos e admirados pelas suas peculiaridades e, até certo ponto, singularidades. Uma forma quase artesanal de fazer cinema virar arte. E arte virar cinema. Assim, observa-se o filme que possui características peculiares e uma produção meio que improvisada. E não seria isso o Cinema?  “Noite de Estréia” (“Opening Night”, EUA, 1977) é um teatro espetacular.

          E o que sugere o título? Talvez algo mais que superficial. Uma historinha sobre uma atriz que, após a morte de uma de suas fãs, se sente culpada e isso acaba por atrapalhar o andamento da sua carreira. É. Simples a ponto de causar desinteresse… Mas John Cassavetes vai mais fundo na questão. Ele trata ‘pequenas questões’ como grandes desafios e deixa a platéia à espera da improvisação. Afinal, até onde pode ir o ser-humano? E o que é real e o que encenação na vida de Myrtle Gordon (Gena Rowlands)? A reflexão sobre o drama de uma atriz de sucesso. Um filme construído na base do “quem vê”, “o que se vê” e “o que é imaginário”. Esse tripé construído a partir do teatro faz do filme uma composição especial e com um olhar de ‘a encenação não caba quando a peça termina’. E o que se vê quando as cortinas baixam são demonstrações de insegurança e uma série de crises desencadeadas a partir da dificuldade de aceitação de uma pessoa que ainda não aprendeu a lidar com a chegada da maturidade. A situação é apresentada, resta, ao público, ter seus sentimentos despertados.

noite-de-estreia-poster01.jpg          Myrtle Gordon é uma grande atriz que sofre com os dissabores da vida. Após receber o papel de interpretar uma personagem que envelhece, a atriz sofre sucessivas crises de aceitação. Essas crises refletem o apego da atriz à juventude. Isso fica claro à medida que o filme vai se desenvolvendo e as crises existenciais vão se tornando constantes a ponto de ‘atrapalhar’ a sua vida profissional.  Mas isso é só uma parte da extensa abordagem que reflete o grande empenho do diretor em colocar o teatro e o cinema lado a lado numa composição onde a lente faz uma leitura dramática do que seria realidade e artifício dentro do cinema e do teatro.

          O teatro dentro do cinema ou o cinema dentro do teatro? Se uns indagam que “é possível fazer tudo dentro do cinema”; Cassavetes diz que é possível transportar para dentro do cinema a carpintaria teatral, além do que, no teatro, as cenas ganham vida (literalmente) porque os erros não podem ser cortados e com um novo ensaio ou uma nova gravação ser corrigido. No teatro a representação é mais aberta: o ator e o público. O ator é livre para interpretar e viver o papel como num supro de vida. Mas dentro do cinema de Cassavetes há o encontro da câmera: o corte, a edição e há a atuação que imita a vida e de forma impressionante.

          Na atuação de Myrtle Gordon, a arte que ela faz imita seus dramas, suas limitações, seus medos e sua idade. Daí advém toda a exaustão por parte da atriz ao interpretar um papel que – apesar de negar isso – é a sua identidade. O início sugere que a morte de uma de suas fãs – uma jovem espectadora de suas peças – é uma deixa do tipo: ‘a juventude morreu para você’. Esse fato abala a atriz quando ela passa a enxergar isso como um obstáculo à sua felicidade enquanto mulher. E a partir daí começa a luta de Myrtle Gordon para superar as crises de aceitação de sua real situação de mulher que perdeu as ‘alegrias’ da juventude.

         Mais um dos filmes de Cassavetes que instiga o espectador a pensar nas suas limitações. E corrobora que tanto o teatro quanto o cinema estão à mercê da improvisação. É o tudo ou nada da improvisação.