teatroheader.jpg

Caoticamente admirável 

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Três histórias distintas que retratam o cotidiano de maneira inusitada e caótica. O espetáculo Corra, do Grupo Magiluth, é surpreendente e inovador. São inúmeros os personagens e as situações que o texto pulsante de Marcelo Oliveira traz. Contudo, apenas quatro atores são vistos no palco. O cenário praticamente inexiste. A peça, inspirada na Teria do Caos – aquela mesma do filme Efeito Borboleta –, quebra limites de espaço e tempo. E o resultado é algo imprevisível e simplesmente magnífico.

cartaz-do-espetaculo-corra.jpg        No primeiro ato, que dá nome à peça, o caos urbano e a influência do tempo no modo de vida contemporâneo são apresentados. Desconecto aborda a comunicação através da Internet. A última parte, Manga Rosa, conta a triste história de amor entre o doceiro Pierre e a personagem de Júlia Fontes que nomeia o último ato. A narrativa se passa numa pequena cidade onde todos se conhecem e dá um desfecho trágico ao espetáculo.

          A iluminação de Pedro Vilela é sublime e a sonoplastia de Hugo Souza desempenha bem o seu papel. Os atores dão um show. Destaque para as atuações de Marcelo Oliveira – que também dirigiu o espetáculo – e a excepcional Júlia Fontes. O figurino é simples e os atores contam ainda com alguns adereços que são usados ao longo da peça, como chapéus, lenços e chupetas.

          Logo na primeira parte, a peça assume um ritmo frenético prendendo por completo a atenção do espectador – que se esforça para não perder nenhum detalhe da enxurrada de acontecimentos encenados. Uma série de eventos é desencadeada a partir de algo aparentemente simples: é o tal do “efeito borboleta”. No segundo ato, o frenesi dá lugar à artificialidade com a qual são retratadas as conversas via msn. Os movimentos mecânicos dos atores, imitando robôs, deixam claro essa superficialidade das relações via Internet, além da própria disposição do elenco, de costas para a platéia. Em Manga Rosa, o espetáculo assume um tom mais poético, resgatando a temática do efeito borboleta, quando conseqüências graves podem advir de um único ato. Um humor ácido e inteligente permeia toda a montagem.

         As três esquetes formam um conjunto primoroso. Contudo, a poesia que inunda a última delas diverge da proposta global. A primeira história apresentada é, de longe, a melhor do espetáculo pelo ritmo alucinante e pelos elementos que evoca. O segundo ato, apesar de breve, é de um caráter questionador incrível. A sonoplastia desempenha um papel fundamental nessa parte.

corra.jpg          Esse trabalho do Grupo Magiluth é louvável. O grupo surgiu em 2004, a partir de um trabalho de alunos do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Pernambuco. Corra é um trabalho que impressiona pela atualidade do tema e pela imaginação com o qual este é retratado, através de um texto perspicaz, de uma direção apurada e um elenco competentíssimo. Os personagens chegam ao público através dos atores com uma linguagem cênica própria, que envolve não só a “mera” interpretação de um papel: os atores-narradores apresentam, narram e interpretam os diversos tipos que compõem o espetáculo.