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  AQUI SE COMPRA, AQUI SE VENDE

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          Em “O Cheiro do Ralo”, o ser-humano aparece como algo descartável, incapaz de gostar de si mesmo ou do próximo. A simples mercadoria ou a mercadoria em si mesmo, assim é que se apresenta o filme produzido por Heitor Dhalia. Um cenário a ser descoberto (sabe-se lá em que momento). E um espaço restrito a paredes  industriais, portões pintados de forma estranha. Tudo filmado de forma calculada. Imagens que se repetem. Um muro e um homem a caminhar, um vestígio do pós-modernismo. O homem e sua vida solitária. Desgarrada.

          O filme parece uma seqüência de imagens que não diz muita coisa. O nada que permanece no nada  até que nesse tal ‘nada’ encontremos alguma coisa concreta. O mesmo trajeto, a mesma atividade e os mesmos pensamentos e pouco esclarecimento. Casa-brechó -lanchonete- brechó – casa. E nenhum motivo para desconfiar que algo vai acontecer nesse emaranhado de nada em algum lugar do… Bom, o lugar, ninguém sabe.

          Para dar a idéia de fluidez, a montagem organiza quadros coerentemente adequados ao espaço urbano-industrial. Com câmera fixa, os enquadramentos ganham uma certa rigidez e o trajeto casa-trabalho-lanchonete-trabalho-casa (a ordem é importante, pois quebra a idéia de vida agitada – entenda-se: lugares novos – e passa a idéia de cotidiano monótono – rotina).o-cheiro-do-ralo.jpg

         O personagem é (apenas?) uma imagem a preencher um quadro que vai delineando fundos de cores simples e apagadas. Como o próprio personagem. Depois o diretor vai testando e testando outros personagens, mas as cores continuam apáticas. Como numa economia de tinta ou o próprio tom de mesquinhez dado ao personagem principal. É como se não houvesse chance para o cenário (aberto) de Lourenço (interpretado por Selton Mello) adquirir cores alegres.

          Uma seqüência de enganos. Psicótico, doentio. Relacionamentos não interessam a Lourenço. Um cheiro que incomoda. Um personagem psicótico e depositário de males. Humanização esvaziada, tudo é objeto. Do tipo ‘aqui se compra, aqui se vende’. Baseado no livro de Lourenço Mutarelli, “O Cheiro do Ralo” – poderia até ser chamado de O Cheiro da Mesquinhez de Lourenço – é um filme que não propõe um plano de ação para a situação de degradação humana, mas é um filme que submete tudo que se mostra frágil e desprovido de princípios a um plano menor – microcosmo.

          Lourenço é uma figura movida pela exploração de pessoas que se mostram desesperadas para conseguir dinheiro à custa da venda de objetos usados – um objeto de família, muitas vezes. Explorando o desespero, o protagonista compra a preços irrisórios objetos que valem quase o dobro do que ele paga.Ou paga o dobro do que valeria um preço irrisório, dependendo do estado de humor. Entre duas partes do todo que compõe o filme, Lourenço vive entre o ser pervertido e o ser caridoso. Entre o olho e a bunda. Isso mesmo. O olho que é a representação do pai e a bunda é a representação de um relacionamento que não pode ser atingido no todo. Lourenço não consegue gostar de ninguém a não ser as suas quinquilharias e idéias pervertidas.

           A que se considerar que a composição artística do filme é algo de se admirar. As quinquilharias, o espaço escolhido, tudo é de um gosto requintado e muito bem escolhido. Esse filme é a representação do homem enquanto ser puramente mercante. Mas o lugar, não se sabe…