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UMA SENSAÇÃO DE INCOMPLETUDE…

cultrecomenda.jpg             Dias selvagens (A Fei Jing Juen / Days of Being Wild, Hong Kong, 1991) é um chavão de uma categoria incrível e que faz com que, aos poucos, nos apaixonemos pela insistência de repetição de uma frase pronta e de uma cena corriqueira que ganha amplitude devido ao uso constante de elipses, diálogos os mais comuns possíveis. Mas essa paixão acontece em um minuto  como no começo do filme que, ao seduzir Su Lizhen (Maggie Cheung), Yuddy (Leslie Cheung) diz que  eles sempre se recordarão daquele minuto que passaram juntos. Esse é um daqueles filmes onde as ações acontecem de forma lenta e com uma simplicidade que impressiona. O filme é bem linear.

          E as reações que insistem em não surgir. Parece até que o filme não vai sair do lugar. Nenhuma coisa nova a acontecer durante a projeção. Mas é engano, o filme é muito bem conduzido. A fotografia, os closes, as câmeras lentas que enfatizam cada movimento de corpo, os passos firmes e determinados (aparentemente) e olhares que escondem o verdadeiro sentimento por trás de todo aquele falso caminho.

          É um filme que não tem firulas de gestos, câmeras. É fácil de ser digerido. Dias Selvagens não é um filme que necessita de muitas explicações. É para ser visto e ponto. Amores que começam em um minuto e que acabam da mesma forma que começaram. Sem explicações claras… Mas também os personagens exigem entrega imediata. É uma forma ingênua de amar. Personagens perdidos, sem muito o que contar sobre si mesmos, a não ser o fator que os une: Todos estão buscando algo. Uns já sabem o que procuram, outros ainda estão por descobrir. Outros estão perdidos… É tudo muito solto e cruel, por vezes. É uma sensação de incompletude que perdura até o fim do longa-metragem.

           Hong Kong, um lugar onde os personagens principais se encontram, tornam-se amigos por minutos e logo depois abre-se um novo caminho entre eles. Lugares perdidos, escuros e que, aparentemente, não oferecem perigo. Um lugar que só existe para os personagens. Cada um com seu sentimento, com uma vontade de ‘ser’ e de ‘estar em’ e de conseguir o que sonham. É um filme cheio de elipses. O que torna um tipo ‘curioso’. As cenas ficam mais sombrias por conta do uso freqüente das elipses. E a idéia de que ‘amar é nunca satisfazer o desejo por completo’.

dias-selvagens-poster01.jpg           Yuddy faz um tipo homem-fatal. As mulheres apaixonam-se fácil por ele. Mas, a única mulher que interessa a esse rapaz é a sua mãe. A partir do momento que descobre ser adotado por uma prostituta de luxo, Yuddy não pensa em outra coisa: encontrar a mãe verdadeira. Essa busca o leva por um caminho fatal. É cruel a forma como Wong Kar-wai conduz o final de Yuddy. Quando o rapaz encontra finalmente a mãe, ela não o recebe. E ele vagueia de canto a canto tentando descobrir o que fazer da vida e quando decide tomar um rumo, já é tarde.

          Dias Selvagens é um filme que mostra a infelicidade dos seus personagens de forma estilizada (ou seria um tipo brega-estilizado). E como o ser-humano dá voltas e voltas em círculos de rejeições. Um visual meio que retrô dos fatos. Cenas, por vezes, coreografadas. Não, nada está bom…