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À flor da pele? 

Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          Com direção de Sônia Christnak, a Teodora Lins e Silva Companhia de Teatro apresenta a última peça escrita pelo gênio da prosa realista brasileira: Machado de Assis compôs Lição de Botânica em 1905, três anos antes de sua morte. A comédia em único ato trata da relação entre o Barão Sigismundo de Kernoberg e a Botânica, ciência que adotou como esposa. Ele acredita que o casamento é incompatível com sua profissão. Até encontrar Helena, uma jovem viúva que consegue fazê-lo mudar de idéia.

           O Barão Sigismundo vai até a casa de Helena com o intuito de impedir que seu sobrinho Henrique, também botânico – trata-se de uma “profissão de família” –, continue a ver Cecília, irmã caçula da viúva. O cientista busca a ajuda de D. Leonor, tia das meninas. No entanto, a esperta Helena consegue fazer com que o Barão não apenas concorde com o romance entre Henrique e Cecília, como também ele mesmo mude de idéia em relação ao casamento e peça sua mão à D. Leonor. 

          Com diálogos sutis e uma tensão psicológica que caracteriza os textos de Machado, a montagem da Teodora Lins e Silva aposta alto na ambigüidade ao colocar três atores nos papéis femininos e uma atriz interpretando o Barão. Henrique apenas é citado na peça. Esse recurso acabou por deixar a encenação caricata demais, à exceção do ator que interpreta D. Leonor: sua desenvoltura é perfeita. Quanto à Alcy Saavedra no papel de Cecília, impossível não se lembrar do trapalhão Zacarias ao vê-lo em cena. 

          A montagem começa com a exibição desnecessária de um vídeo que já revela a maior surpresa da encenação: a troca de gêneros dos atores em relação aos personagens. O figurino de época, assinado por Marcondes Lima, é deslumbrante. Em contrapartida, o cenário de Roberto Lúcio poderia ser mais elaborado. A trilha sonora se encaixa bem à proposta. Mas os cortes bruscos na execução das músicas não soam bem, assim como a mudança repentina na intensidade da luz. 

           No final, um trabalho de iluminação de encher os olhos com o elenco se dispondo no palco como se estivesse numa fotografia. E também a impressão de que, em se tratando de Machado de Assis, a falta de interesse da crítica pela sua dramaturgia se justifica plenamente diante da riqueza de sua prosa realista. Vale ressaltar ainda que a poesia e os romances machadianos da fase pré-realista também não despertam lá tanto interesse. Talvez porque o ideal seja se fixar naquilo que o autor tem a nos oferecer de melhor.

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