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O exército brasileiro contra as trincheiras do tesão 

Por Francisco Ludermir Ferreira e George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Depois de três dias de desconstruções de tabus e conteúdo iconoclasta, tem início A Luta, terceira parte e a mais popular do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Envolvidos pelos espetáculos anteriores ou entrosados pelos comentários de amigos e críticas de jornais, uma platéia cheia de expectativas esgota os ingressos do sábado, 22 de setembro. A resistência de Canudos, um povoado à parte dentro do território brasileiro, passa a ser o foco da trama encenada pelo Oficina: dentro de um Estado republicano, uma monarquia dionisíaca – que segue o beato conselheiro como a um messias – se constitui e suscita o repúdio do governo e de outras instituições burguesas. 

          Um incidente na compra de madeira para a construção da Igreja Nova no Arraial de Canudos é o estopim de uma guerra cruel que finda na trágica e completa destruição da comunidade. No entanto, as três primeiras expedições do exército brasileiro são vergonhosamente derrotadas pelos revoltosos: os militares – que de tão despreparados, têm dois cegos pervertidos como guias – não resistem às trincheiras e guerrilhas de pessoas que lutam com amor e tesão. Esses primeiros movimentos do conflito são retratados com estética apurada e bom-humor na primeira parte de A Luta. 

sertao07g.jpg          A madeira já devidamente paga – com um dinheiro trazido às escondidas numa camisinha estrategicamente guardada – é apreendida na cidade de Joazeiro por vingança de um juiz ressentido, cuja amada fora capturada pelos seguidores de Conselheiro. Um telégrafo em forma de batucada denuncia a arrogância do Governador baiano que não admite intervenção federal em seus domínios. A primeira expedição se forma sob o comando do Tenente Pires Ferreira, brilhantemente interpretado por Freddy Allan. Uma emboscada preparada pelos conselheiristas pega a tropa desprevenida em Uauá. É a primeira vitória dos revoltosos. 

           Um reforço internacional é chamado para tentar diminuir a vergonha de um exército nacional que foi posto para correr. É quando entra em cena Condoleezza Rice e a estratégia do Chorus Line – sátira do musical americano – com novos quepes militares compostos por cortininhas vermelhas em forma de palco italiano. Nas cabeças dos soldados, mais parecem cabrestos de burro limitando-lhes a visão, numa crítica explícita – porém sutil – ao drama pequeno burguês que Zé Celso tanto repudia.

           Em meio a narrações históricas sobre um Brasil que trocava de presidente e declarava guerra a Canudos, aparecem os sarcasmos – ao mesmo tempo requintados e escrachados – e a nudez desavergonhada. A moral de um país prudente é posta em cheque quando um representante civil assume, pela primeira vez, o comando da nação: o Marechal Floriano Peixoto se recusa a passar a faixa presidencial para Prudente de Morais e a República faz isso em seu lugar. E diante da crise de duas expedições fracassadas, a terceira é formada e enviada ao Sertão baiano sob o comando de Moreira César. 

aluta1.jpg          O público assiste extasiado à ejaculação ritmada do ator Mariano Mattos Martins, durante um conflito armado que provoca inúmeras baixas – e ovaciona a performance. A terceira expedição consegue adentrar a cidadela de Canudos, representada por seis mulheres, unidas por uma manta marrom única, que abrem as pernas para receber os invasores. Os soldados se saciam em seus ventres até serem esmagados com uma chave de pernas. O desespero toma conta do exército com a morte de Moreira César: as tropas brasileiras são acometidas por mais uma derrota. O que se vê a seguir é de um cuidado estético inquestionável: os corpos nus de todos os soldados são dispostos na pista, incluindo Moreira César, agora representado por um boneco. Suas cabeças são teatralmente degoladas e seus uniformes usados como decoração do espaço cênico. Um cheiro de carne queimada toma conta do ambiente enquanto uma tocha percorre os corpos despidos. 

          E nesse ambiente libidinoso e esteticamente impecável, o espectador é convidado a participar do “ser homem” em sua mais pura essência, junto com atores que cantam e dançam as desventuras pátrias durante quase sete horas. Não escapam às críticas o pseudopacifismo da Organização das Nações Unidas, a corrupção no Senado, o consumismo e as especulações imobiliárias do capitalismo desenfreado deste início de século. Em um elogio à Antropofagya de Oswald de Andrade, em que nenhuma nudez é castigada, o Teatro Oficina Uzyna Uzona se inspira na luta de Canudos para continuar lutando fora dos palcos pelo sonho de fazer arte. Custe o que custar.