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Resistência apoteótica  

  Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Os atores descem correndo a rampa de acesso à réplica do Teatro Oficina, convocando todos à Guerra contra a monarquia canudense. Discursos exaltados de patriotismo e o exército brasileiro invade a encenação, fazendo os espectadores de reféns. “Mãos pra cima!”, bradam, enquanto o público vai se acomodando nas arquibancadas. Uma mulher que se recusa a obedecer às ordens é carregada para fora do teatro. O Hino Nacional é entoado. A última montagem da saga de Os Sertões, com o massacre do Arraial de Canudos, está começando. 

sertao06g.jpg          Na segunda parte de A Luta, a quarta expedição do exército brasileiro conta com o apoio de uma poderosa arma: a 32, puxada por bois. Quando os animais fazem greve, é a vez do público puxar a Rainha Matadeira do Mundo em sua jornada triunfal. A última expedição também conta com o apoio de um exército gay, encabeçado pelo excelente Guilherme Calzavara interpretando o cabo viado. Um batalhão homossexual formado por homens e mulheres da platéia que se abraçam e se enroscam, respectivamente, com atores e atrizes. As representações populares do Nordeste também estão presentes na montagem: os festejos juninos, o maracatu rural. Tudo euclidianamente inserido. 

          Através de uma videoconferência, fica acertado o dia em que as tropas do General Arthur Oscar se encontrarão com os soldados vindos de Aracaju, em Canudos. Mas o ataque conjunto não se realiza, pois as tropas de Arthur Oscar são cercadas pelos revoltosos, obrigando a segunda coluna a abandonar o posto quase vitorioso, às portas da cidadela do arraial. Uma sonoplastia de tiros e bombas contra um inimigo, na maioria das vezes, invisível faz da última peça do ciclo a mais densa. 

          Um grande flashback é utilizado para contar as aventuras das duas colunas que partem ao mesmo tempo de locais diferentes do Brasil. O exército nacional passa necessidades – ao ponto de tentar comer carne humana (alguém da platéia, lógico) – e precisa ser socorrido por uma Divisão Salvadora que parte de São Paulo. O Marechal Bittencourt, Secretário dos Negócios de Guerra, é nomeado pelo Presidente Prudente de Moraes para comandar as tropas. É ao Marechal que Euclides vai pedir autorização para acompanhar a nova expedição. 

luta2.jpg          Freddy Allan arranca risos da platéia quando o Tenente Pires Ferreira – que já começa a última parte sem uma das pernas – perde o braço, tem um olho atingido e, no final, aparece numa cadeira de rodas. Ele também interpreta um burro hilário, em cujo colo a insinuante e renovada República senta-se com prazer. Com um modelito fashion, ela entra em cena montada na garupa de uma moto. As cores da bandeira francesa permanecem. Mas os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade – constantemente questionados durante toda a encenação de Os Sertões – não têm mais os mesmos significados, se é que um dia os tiveram. E o trágico fim do Arraial de Canudos vai se aproximando. 

          A Guerra estabelecida ganha reflexo nas forças da natureza: Guilherme Calzavara e Camila Mota encarnam o embate perene entre o sol e a noite, num dos momentos mais belos deste espetáculo. A morte de Antônio Conselheiro é outro desses momentos: o silêncio na platéia parecia indissolúvel enquanto Zé Celso se recolhia a uma galeria no subsolo do teatro. Só foi quebrado pelas ordens de Glauber Rocha (Mariano Mattos Martins), que dirigia a cena. “Mais luz, mais luz”, pedia. O diretor, momentos antes, atravessara toda a extensão da réplica do Teatro Oficina amarrado por uma corda, como se estivesse sobrevoando o árido movie.

sertao47g.jpg           Euclides da Cunha declama os últimos momentos de Canudos: o não-rendimento e o massacre. Os últimos quatro sertanejos são vistos em seus derradeiros gestos de vida: mãos engatilhadas, dispostos a resistirem até o fim – que chegou. O corpo de Conselheiro é desenterrado, sua cabeça decapitada e entregue a Prudente de Moraes, que ganha não apenas um, mas dois crânios: o Marechal Bittencourt também é degolado ao defender o Presidente de um atentado, na cerimônia de boas-vindas às tropas.

           Na visão do diretor José Celso Martinez Correa, o desfecho descrito em Os Sertões sofre um (des)massacre e um re-início, através das mulheres grávidas salvas por Beatinho – o sucessor de Conselheiro – e fotografadas por Flávio de Barros. A foto original aparece na projeção: é a prova de que o conflito em solo baiano não foi em vão, na esperança de que a luta do Uzyna Uzona também não seja. E assim como Canudos, que não se rendeu e resistiu até o fim – até os dias de hoje –, o Teatro Oficina Uzyna Uzona vai difundindo sua ideologia, ser-estando e emocionando aqueles que se dispõem a ouvi-la. Uma ideologia transgressora de uma ordem socialmente estabelecida que desperta a fúria de instituições burguesas – tal qual a de Antônio Conselheiro.