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A aridez e a vivacidade do Sertão 

Por Renata Beltrão 

recomendadoteatro.jpg           Foi minha primeira peça de Zé Celso. Eu, que nunca fui muito de teatro, não sabia direito o que esperar da apresentação de A Terra, primeira parte do projeto Os Sertões. Sabia o que tinha lido nos jornais: que se tratava apenas da menor porção de uma peça com 26 horas de duração; que teria o privilégio, como recifense, de ver tal montagem na minha cidade; que provavelmente veria gente nua e que possivelmente acabaria no meio do tablado, puxada por alguém do elenco, por bem ou por mal. Fora isso, só a expectativa de participar daquilo que acabou classificado como o maior acontecimento cultural do ano, logo a adaptação do capítulo mais injustamente desprezado da literatura brasileira. 

           “Vai ler Os Sertões? Então pula A Terra, que é uma chatice.” Tenho certeza que você já escutou a frase. Tenho mais certeza ainda de que quem a disse provavelmente também não leu o capítulo e só está repetindo um conselho infeliz. Ainda bem que o pessoal do Teatro Oficina não deu bola pra essa asneira, e nem eu dei bola para as asneiras que me disseram sobre o Teatro Oficina e aquele tipo apresentação – por exemplo, que alguém do público sempre acaba pelado e com a roupa em frangalhos, contra a própria vontade. Ou teríamos todos, os recifenses em geral e eu em particular, perdido a oportunidade de participar de um espetáculo tão envolvente quanto as descrições que Euclides fez do semi-árido brasileiro.

terra2.jpg            A encenação de A Terra começa do lado de fora do teatro, o elenco dançando e se misturando ao público, abrindo espaço entre os entendidos e os surpreendidos, numa tentativa de estabelecer uma espécie de acordo tácito sobre o que estaria por vir. Olhar o público nos olhos, espectador por espectador, parecia ser uma das tarefas primordiais dos atores. Meio envergonhada no começo – logo eu, que não olho pra ninguém e tento me fazer invisível na rua –, me vi aos poucos encarando-os de volta. Nem sabia, mas atendi ao chamado silencioso e, antes de perceber o que estava fazendo, já tinha entrado no jogo e fazia parte da encenação, mesmo quando permanecia apenas sentada, quietinha, na primeira fila da arquibancada. 

            A Terra – a de Euclides da Cunha – é uma descrição meio técnica, meio poética, do que é o Sertão brasileiro. Em que paralelo ele começa e em que coordenada acaba; quais são e por onde passam os seus rios; seu clima, seus animais, suas plantas e o homem no meio disso tudo, sugando a terra e eventualmente destruindo-a, agindo como o mais implacável dos fatores geológicos. Na montagem do Oficina, até os dados técnicos destacados por Euclides viram poesia pura, num texto que mescla trechos da obra original com a releitura para o teatro, num cenário pra lá de econômico que dá valor a soluções simplificadas para mostrar e reconstruir a aridez e a vivacidade (ela existe) do Sertão. 

           Ao encarnar toda a sorte de plantas, aves e animais que habitam a aridez do interior nordestino – sem falar na própria terra, o solo onde se desenrolariam todos os acontecimentos de Canudos – o Teatro Oficina consegue causar na platéia a mesma sensação de deslumbramento que Euclides transmite nas suas descrições do Sertão. Somos puxados para o tablado e para dentro daquela aridez, assumindo também os papéis dos seres – uns fantásticos, outros nem tanto – que habitam a terra desprezada. Juntos, atores e platéia no centro do teatro, reproduzimos o microcosmos de harmonia e interação de uma terra que ainda viria a conhecer a interferência humana. 

a-terra.jpg           Poucos foram os momentos em que não tinha ninguém da platéia no tablado, aliás. Meio cabreiro a princípio, o público logo tomou o centro do teatro sem convite mesmo, algumas pessoas praticamente se confundindo com os atores – e ninguém, diga-se, puxado contra a vontade. Passei boa parte da peça mudando de lugar, conduzida pela encenação feito gado, junto com dezenas de outras pessoas. Fiz ciranda de mãos dadas e bebi água de uma cabaça, oferecida pelas atrizes. Me enrolei toda no elástico que fez papel de paralelo terrestre e enrolei outros, até me ver no meio de um bolo humano que tinha que se movimentar junto para um lado e para o outro, num cai-não-cai que foi um dos momentos mais divertidos. Vi, com satisfação, que a nudez abundante na montagem fazia todo o sentido do universo e foi encarada por todos – amém! – com toda a naturalidade.

             E no final, fiz silêncio para ver a entrada de Conselheiro (o próprio Zé Celso), com as mãos sujas de sangue verde (a terra sangrando), nos convocando novamente para uma última participação, depois de quase quatro horas e quinze de experiência. E foi assim, todo mundo com a mão verde de tinta, que o público voltou para casa, descansar desse início de maratona teatral para voltar no dia seguinte e conferir a continuação desse projeto docemente megalomaníaco.