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O teatro das angústias do homem 

Por Francisco Ludermir e Gustavo Maia 

recomendadoteatro.jpg          Um lugar pequeno e difícil de achar. À primeira vista, parece pouco convidativo. Mas quando os jovens atores do grupo Quadro de Cena convidam o público a entrar no mundo das mazelas humanas, começa uma viagem avassaladora ao interior do homem e de seus problemas. O Auto da Barca dos Mundos – que esteve em cartaz no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) – foge do convencional e permite contemplar, de um palco onde se confundem atores e platéia, uma peça arrebatadora. 

comeco.jpg          A montagem segue um estilo brechtiano e é resultado de oficinas de interpretação oferecidas ao elenco pelo diretor Samuel Santos – também autor e diretor dos infantis O Amor do Galo pela Galinha D´água e A Terra dos Meninos Pelados. Com duração de pouco mais de uma hora, a peça é formada basicamente por monólogos curtos que transmitem dinamicidade. Para isso, são fundamentais a garra e a técnica demonstradas pelo grupo de dezesseis atores, cujo talento é promissor. Os contextos se modificam de instante em instante, interligados pelo tema global: o ser – enveredando pelo universo do amor, da política, do corpo, da violência, da doença e da psique. Temas tão universais e importantes como estes merecem uma reflexão mais profunda. E os sortudos que assistiram a O Auto, tiveram a chance de fazê-la. 

          No espetáculo, são abordados dez pequenos mundos com realidades peculiares que também são compartilhadas pelo público, constituindo um único conjunto em que cada personagem se mostra esquizofrênico a seu modo. Uma menina traumatizada por uma violência sexual que se esconde atrás de uma imagem pueril dos seus maiores medos; um homem robotizado pelo cotidiano que, apesar de lúcido e consciente de sua condição, não consegue se libertar; uma prostituta que ao final de uma noite de trabalho se enoja da sua atividade e vomita o asco de si própria; além da crise de comunicabilidade de um casal – sinal dos nossos tempos – exemplificam o contexto geral. Uma das esquetes mais polêmicas traz dois homens que resolvem matar políticos para dar fim a sua indignação. Os motes que compõem O Auto da Barca dos Mundos, poeticamente construídos, denunciam algo concreto e presente de forma velada no cotidiano do espectador, trazendo questionamentos.  

o_auto_1.jpg          Um debate é proposto no final e as dúvidas e angústias de cada espectador – que se percebeu um pouco retratado ao longo do espetáculo – são externadas. Mediado pelo próprio diretor, dúvidas e sugestões aproximam ainda mais os dois mundos do teatro: o mundo dos que fazem e o dos que contemplam. Dessa forma, é possível sair do CPT se conhecendo um pouco mais e com a certeza de que a arte pernambucana é fértil e promissora.