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Quanta ousadia!

 Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          A montagem da Expressart Produções para Ópera do Malandro é mais uma prova de que um bom texto não consegue fazer com que um espetáculo seja realmente bom. A atuação mediana de boa parte do elenco, as coreografias descompassadas e as dublagens mal feitas causaram um efeito devastador na bela história escrita por Chico Buarque de Holanda, cujo protagonista está longe de ser um herói. A primeira montagem desse texto estreou no ano de 1978, época da ditadura militar no Brasil.

           A peça se passa na década de 40 e conta a história de um malandro carioca que quer apenas sobreviver: Max, ídolo dos bordéis. Retratando a malandragem brasileira no submundo da cidade do Rio de Janeiro, o texto faz uso de vários artifícios para resgatar aquela época: a novidade das meias de nylon e a chegada de produtos norte-americanos contrabandeados são algumas dessas referências. A Lapa das prostitutas e da pancadaria é o cenário escolhido para abordar essa temática que traz ainda a Guerra Mundial como pano de fundo.

cadeia.jpg           Ópera do Malandro põe em cena a rivalidade entre o contrabandista Max Overseas e Fernandes de Duran, dono dos prostíbulos. Entre os antagonistas está Terezinha – filha única de Duran e Vitória –, que se casa com Max sob as bênçãos do Inspetor Chaves, o Tigrão, que exerce um papel ambíguo entre os dois contraventores. O desgosto do casal Duran com o casamento de Terezinha é o mote para uma trama onde todos querem tirar vantagens. Geni e Lúcia, a filha do inspetor e rival de Terezinha, são outros dois personagens inesquecíveis deste musical.

           A Orquestra Popular do Recife fez o acompanhamento desta versão dirigida por Isolda Virgínia. Logo no início, o prenúncio de que o que estava por vir não corresponderia à grandiosidade esperada de uma montagem da obra de Chico: a performance de abertura deixa a platéia constrangida. Ao longo da peça, outras gafes, como a interpretação à la Maria Clara Gueiros de Juliana Mendes e os passos de dança de Kézia Mayara na música O meu amor. E, pra terminar, um final brusco e mal resolvido, já que o texto não foi preservado por completo. Dessa forma, Lúcia parece ter “caído de pára-quedas” apenas para rivalizar com Terezinha a canção que inicialmente fora interpretada por Elba Ramalho e Marieta Severo.

           Reyson Santos e Thiago Herculano se destacam nos papéis de Geni e Max, respectivamente – apesar da cena da morte do protagonista deixar um pouco a desejar no quesito interpretação. A própria Juliana Mendes, que interpreta Vitória Duran, até que não faz feio. Mas, em determinados momentos, fica-se esperando ela soltar o bordão “Vem cá, te conheço?”, tamanha é a semelhança. Késia Mayara está no caminho certo, embora ainda precise encontrar um tom menos esganiçado para sua Terezinha. Quanto à Monique Nascimento, está perfeita no papel.

opera-do-malandro.jpg            Algumas falas se perdem ao longo da apresentação. As próprias letras das músicas não são de todo ouvidas, o que parece fundamental devido à proposta do espetáculo. As dublagens são um verdadeiro fiasco, apesar do belo trabalho da orquestra. Cenário e figurino cumprem bem o seu papel. E a iluminação poderia ser mais apurada. Vale ressaltar que montar uma obra deste quilate é uma empreitada ousada. Pena que essa ousadia não tenha sido suficiente para montar um bom espetáculo…