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SORTE E AZAR  

cultlogo.jpg          Em Querô: uma reportagem maldita (1960), livro de Plínio Marcos, o autor descreve no romance uma história no plano literário que é adaptada e levada ao cinema pelo roteirista e diretor (estréia) Carlos Cortez, que indica como é a organização cinematográfica na tela, mantendo-se o caráter ideológico da obra. 

           A adaptação mostra o personagem em seus momentos de ‘utopia’, de ‘pureza’ e ‘incredulidade’ ao mesmo tempo em que despreza a sociedade. Isso é o plano literário que já em 1976 foi convertido em peça teatral e agora está no cinema. A obra fala da trajetória de um menino de rua. Essa abordagem ganha as telas a partir da adaptação que tenta explicitar mecanismos empregados no romance com a melhor tonalidade possível dentro do cinema.  

quero-poster01.jpg           “Muitos têm de tudo e outros não têm nada”. Sorte e azar. É a pluralidade de objetos: “a gente, a bunda virada para a lua, cagado de arara, urubu posado na sorte”. No sentido de crítica social. Mas afinal, de que lado você vai estar? Ricos com sorte ou pobres com azar? Assim é que chega aos cinemas o filme que teria dado muito o que falar (em 1960-1980?) não fosse o cotidiano nosso onde cada acontecimento ‘não é um choque’. E as reportagens corriqueiras. Hoje, o que vemos em Querô (Brasil, 2007) não é mais novo. E o filme é tão realista que chega a não acrescentar mais nada. 

           Filho de uma prostituta – que nem mesmo sabe quem é o pai do menino – Querô (Maxwell Nascimento) por vezes lamenta ter nascido. Diálogos abertos e de fácil entendimento são direcionados ao espectador. No livro, é clara a idéia de que há um certo ‘apelo’ ao aborto. Querô, em certo momento, clama por essa opção. Se sua mãe o tivesse abortado ele estaria melhor: “teria virado anjo”. Mas vendo o filme, inicialmente, temos a impressão de que há um “não ao aborto”. Isso é só impressão… Talvez… Um jogo? Uma abertura para discutir o tema.

           Querô (querosene) é a voz dos meninos de rua e a conseqüente inserção no mundo do tráfico/crime (e a primeira passagem pela Febem – que, aliás, deixa traumas irreparáveis no menino) e depois seu crescimento na incerteza e a possessão pelo ódio por todos os malefícios do seu nascimento e sua vida desgarrada. Sem rumo, sem lar. Atira. Mata. Fere e agoniza pelas ruas até o delírio que traz as imagens da mãe e depois o fim dos descaminhos. Notícias de todos os dias!