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Freneticamente exacerbado

 Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          Com um cenário que é movido a todo instante por um elenco que se movimenta em ritmo frenético, a caruaruense Parangolé Produções Culturais encena o amor de um fidalgo português por uma escrava nos tempos da colonização luzitana. Amor em tempo de servidão, texto de Demóstenes Félix e direção de Gabriel Sá, conta com catorze artistas, entre músicos, atores e uma espécie de índio moderno – “o último dos moicanos” – que marca a passagem de tempo ao se movimentar em torno do palco enquanto se desenrola a ação.

           Os atores se trocam no palco, vestindo o figurino uniforme do espetáculo: o que vai identificar os personagens distintos que são interpretados por um mesmo artista são os adereços, principalmente chapéus. Na interpretação, destaque para a atriz Sharlene Santos, que representa a vilã e a mocinha da história. A distinção com a qual ela representa a senhorinha apaixonada pelo capitão e a escrava pela qual esse herói se apaixona é impressionante. Não obstante, todo o elenco se apresenta de maneira competente. No entanto, alguns movimentos exagerados – um tanto quanto “clownescos” demais ficam sobrando na montagem.  

servidao.jpg          A quebra de estereótipos é outro aspecto positivo de Amor em tempo de servidão: a protagonista que interpreta a escrava não é negra e, em uma das cenas, ela contracena com uma atriz morena que faz às vezes de senhorinha. Já o fato de algumas partes do texto serem ditas em uníssono, aparenta uma espécie de jogral, adquirindo um didatismo exacerbado do qual, aliás, a montagem não consegue se livrar como um todo. 

          A valorização exacerbada da parte musical – com composições de Felipe Magoo e Valdir Santos – em detrimento da ação deixa o desenvolvimento da trama pouco consistente. O conflito é apresentado de maneira simplista e se resolve dessa mesma forma, em nada condizendo com a complexa rede de movimentos que envolve o cenário, composto basicamente por uma grande caixa de madeira que se desmonta e remonta, servindo como nau, pelourinho ou canavial. 

            Por falar em canavial, uma contradição observada no texto diz respeito ao ciclo econômico retratado na peça: em determinadas falas dos personagens, é mencionado que “escravo é para trabalhar no cafezal”, embora uma plantação de cana seja montada no palco. E desmontada logo em seguida, diga-se de passagem. Enquanto a lavoura é preparada por um dos atores, outros quatro ficam peneirando feijão próximo à platéia, que, ao final da atividade, é alvejada pelos caroços do cereal – sabe-se lá por que motivo. 

           Do mesmo modo, é completamente desnecessária a presença do tal moicano, que além de rodar todo o palco, faz uma apresentação performática de dança próximo ao fim da peça. Os cantores que entram em cena cantando também é um recurso bastante questionável, apesar da presença do conjunto musical ser indispensável à montagem – desde que devidamente restrito ao seu devido lugar no canto do palco. 

          Ainda assim, Amor em tempo de servidão consegue questionar o domínio do branco sobre o negro, dentro de uma despretensiosa perspectiva de refletir sobre os valores e preconceitos presentes na sociedade atual. Resta saber até que ponto esse questionamento foi transportado à cena de forma a contribuir para a concepção de um belo espetáculo teatral, cujo foco seja a própria discussão, sem exageros ou elementos desnecessários.