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Como nunca dantes visto 

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Como seria a Sagrada Família se ela não fosse a Sagrada Família? É a partir desse questionamento que o gaúcho Roberto Birindelli constrói o espetáculo Il primo miràcolo, que aportou em terras pernambucanas durante a Mostra Nacional de Referência Teatral, dentro da programação do 19º Festival de Teatro Estudantil do Agreste (Feteag 2007). Combinando texto de Dario Fo com a temática dos quadros de Portinari da série Os retirantes, a montagem retrata alguns personagens bíblicos de maneira cômica e sarcástica. São 21 ao todo, interpretados única e exclusivamente por Birindelli sem quaisquer recursos de cenário, iluminação ou figurino.

           A história começa com os Reis Magos em busca da tal estrela que os guiará ao local onde está o menino Jesus. A relação sogra x genro – travada entre Santa Ana e José – também é explorada, chegando finalmente ao primeiro milagre de Cristo, quando este tinha apenas nove anos. Com muito custo, Jesus consegue se aproximar dos garotos da cidade onde passara a morar com seus pais, depois que fugira de Herodes. Todo o seu esforço para construir laços de amizade na terra estrangeira, no entanto, é ameaçado pelo filho do dono do lugar. Como seu pedido de ajuda é recusado pelo Pai (Deus), Jesus não hesita em fulminar, sozinho, o seu rival, transformando-o em estátua. Somente a pedido de Maria, sua mãe, é que ele ressuscita o infante. E eis “il primo miràcolo”! 

il-primo.gif          A relação que se estabelece entre os diversos personagens serve como alegoria para que algumas questões da atualidade sejam postas em xeque, como preconceito racial, opressão e exílio. A relação que o ator brilhantemente consegue estabelecer com a platéia é fundamental para a condução do espetáculo, que foi idealizado como projeto de graduação do curso de Artes Dramáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e há onze anos está em cartaz. 

          Assim, a montagem bebe na concepção do teatro essencial, do qual a atriz Denise Stoklos é a maior representante no Brasil. “Lá, apenas os instrumentos do ator: seu corpo, voz e intuição. Do corpo o espaço, o gesto, o movimento. Da voz a palavra, a sonoridade, o canto. Da intuição o ritmo, a emoção, a dramaturgia”, relata Stoklos em uma passagem do livro Teatro Essencial (1993). Esses instrumentos são utilizados com maestria por Birindelli, que consegue diferenciar cada um dos 21 personagens da peça através de gestual e vibração próprios.

           Dotada de um senso de humor peculiar, a paródia que é encenada mostra os personagens sacros dotados de virtudes e conflitos como qualquer um, tornando-os tão complexos quanto ou ainda mais do que nós, como nunca antes imaginados. Isso tudo em um palco nu, com uma luz aberta e uma roupa preta; o silêncio e o riso precisos da platéia; e uma inquietação que vai tomando conta do público na metade do espetáculo, porém logo após se esvai. Tal atitude é explicada pelo próprio Roberto da seguinte forma: o espectador começa a se perceber naquilo que rira, mas se perdoa logo em seguida… É quando acontece a catarse.