teatroheader.jpg

Como o próprio título sugere

 Por George Carvalho 

teatrologo.jpg          O mineiro Grupo Galpão apresenta uma proposta inovadora para comemorar seus vinte e cinco anos de existência: a partir da campanha Conte sua História, realizada em 2006, foram recebidos cerca de seiscentos relatos via carta e e-mail de várias partes do país, dos quais foram selecionadas as quatro histórias que compõem o espetáculo Pequenos Milagres. Sob a direção de Paulo Moraes, dez atores interpretam dramas cotidianos num cenário extremamente funcional, com figurinos bem acabados e um apurado trabalho de iluminação. 

          Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes respondem pela dramaturgia da montagem, composta pelas narrativas Cabeça de Cachorro, inspirado em texto de João Celso dos Santos, que conta as aventuras de um garoto do interior na cidade grande e é apresentada através de fragmentos ao longo da peça; O pracinha da FEB, enviado por Thereza Alvarenga e que tem como protagonista um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial; O vestido, antigo sonho de adolescência de Maria, o qual consegue realizar quando adulta, baseado em conto de Maristela de Fátima Carneiro; e, por fim, Casal Náufrago, que trata da relação de um casal que vê no Show do Milhão uma chance de resolver todos os seus problemas – inclusive amorosos –, adaptado a partir de um texto anônimo recebido durante a campanha. 

pequenosmilagres.jpg          A sonoplastia é um dos pontos altos de Pequenos Milagres, principalmente na encenação de O pracinha da FEB. O cenário se compõe de duas levas de quatro portas, uma em cima da outra. O figurino de Rita Murtinho e a luz de Maneco Quinderé são impecáveis. Toda a concepção estética do espetáculo, por sinal, é muito bela. E há ainda as projeções no cenário, causando um efeito encantador. Pela atuação, destaque para Atonio Edson, que defende com o mesmo vigor o menino João de onze anos e o idoso Abílio, companheiro de asilo do Sr. Henrique; Paulo André e Júlio Maciel, que fazem uma dobradinha admirável como Henrique e Maurinho em O pracinha da FEB; e ainda para Inês Peixoto no papel de Maria, a sonhadora do vestido. 

          Contudo, os dramas encenados apresentam uma deficiência de conflito, o que não permite um envolvimento pleno do espectador. Os tais pequenos milagres são realmente tão pequenos – ou pelo menos chegam dessa forma à platéia – que não condizem com a grandeza da encenação. Nem a brilhante interpretação do elenco consegue superar a empatia dos conflitos, que pecam pela falta de carga dramática. Tudo se resolve de maneira simples ou não se resolve, como a história de Adauto e Cinira (Casal Náufrago) e a do Sr. Henrique (O pracinha…), que apresentam desfechos vagos – apesar desta última, junto com O vestido, ser as duas que mais deleite provocam.  

milagres.jpg          Pequenos Milagres estreou em Belo Horizonte no ano de 2007, cumprindo turnê pelo Rio de Janeiro, São Paulo e principais festivais do país, incluindo o X Festival Recife do Teatro Nacional, onde se apresentou na noite de abertura. Ao final da apresentação, a impressão que fica é que ou os conflitos cotidianos são simplórios demais para serem levados à cena, ou algo parece ter saído errado na montagem do Grupo Galpão, que tantas vezes acertara ao montar clássicos da dramaturgia mundial. O fato é que, desta vez, a catarse não aconteceu!