teatroheader.jpg

Surdo, cego, mudo…*

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Todas as histórias do mundo já foram contadas. Mas nem sempre com tamanha maestria e beleza cênica como o Grupo Espanca! contou o cotidiano de uma família cuja relação é marcada pela incomunicabilidade. Amores Surdos traz a história de Pequeno, caçula de cinco filhos na passagem para a vida adulta, com problemas respiratórios; Joaquim, o primogênito sonâmbulo; Júnior, que mora longe de casa, mas quer voltar o quanto antes; Graziele, cujos fones não saem do ouvido; Samuel, para quem expressar-se é algo bastante difícil; Gentil, o pai ausente por quem sempre se está esperando; e a Mãe, zelosa como se espera de toda mãe. Todos convivendo numa aparente e possível harmonia, estabelecida ao custo da reclusão de cada personagem num mundo próprio.

surdos.jpg           Minuto a minuto dos cerca de sessenta que dura o espetáculo, o público vai presenciando o abismo que separa cada um dos membros dessa família, a qual enumera os problemas do apartamento de cima, reclama do barulho incômodo que os vizinhos provocam, mas não percebe a própria lama que a circunda. E assim como é impossível esconder um hipopótamo no quarto por muito tempo, numa determinada hora, essa lama toda vem à tona. Resta agora, solucionar a questão de duas formas: liquidar o problema ou aprender a conviver com ele. A primeira hipótese até pode parecer a atitude mais sensata a tomar. Contudo, quem garante que seja duradoura ou que, ainda, não implicará em novas dificuldades?

           Um jogo sutil de metáforas permeia o espetáculo, as quais não passam despercebidas pelo público. O menino que se recusa a calçar sapatos, a mãe que trata o filho com carinho apenas quando este se encontra em estado de sonambulismo, entre outras situações que explicitam a surdez, a cegueira e a falta de comunicação que acomete os personagens. Uma montagem que procura fugir do clichê para contar histórias já conhecidas, mas que o incorpora ao retratar, por exemplo, a adolescente que se refugia nas músicas e “imagina a vida como um clipe musical”.

           Com um cenário transparente que contrapõe com a relação instituída entre os membros da família, Amores Surdos esbanja criatividade, inserindo números de sapateado – por vezes longos – ao som de uma música que poderia ser executada mais baixa. O harmonioso trabalho de iluminação, assinado por Edimar Pinto e Cristiano Araújo, encaixa-se com perfeição à proposta cenográfica de Bruna Christófaro. Grace Passô responde pela dramaturgia e Rita Clemente pela direção. Na interpretação, destaque para Paulo Azevedo – perfeito no papel de Pequeno – e Marcelo Castro que dá vida à Samuel, além de Passô, que interpreta a Mãe. Nesse quesito, Mariana Maioline deixa um pouco a desejar, mas não chega a comprometer o andamento da peça.

amores.jpg          É impossível não se identificar em algum momento com a montagem do grupo mineiro. De forma simples e atingindo diretamente o espectador, Amores Surdos questiona o comportamento humano com contornos dramatúrgicos inovadores – tal qual Por Elise do mesmo Grupo Espanca!. Seja de maneira mais cômica ou mais incisiva, esses questionamentos são levantados durante o espetáculo e absorvidos pelo espectador, que deixa o teatro embevecido. Ou, por que não dizer, liricamente espancado!

.

* Esse mesmo texto foi publicado no Portal Teatro PE.