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Tchékhov à la Chaplin 

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          A circunspecta obra do russo Anton Tchékhov ganhou uma versão inimaginável pela diretora Marianne Consentino. Fruto de uma pesquisa de mestrado em Prática Teatral pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), As Três Irmãs encenada pela Traço Cia. de Teatro, de Florianópolis (SC), explora a técnica do clown como base metodológica para contar a história de Olga, Maria e Irina que, longe da terra natal há onze anos, anseiam pelo dia em que poderão voltar a Winston – Moscou, na peça original.

as-tres-irmas.jpg           A interação com o público começa logo no início, quando duas das personagens vêm convidar os espectadores para o aniversário da irmã mais nova. Bexigas são distribuídas e a orientação é para encher, mas não amarrar. “Quando a pequena chegar, vocês soltam a bexiga pra fazer o efeito. Elas vão sair tudo voando”, orientam Olga e Maria. O encontro do público com o mundo peculiar dessas três figuras se dá ainda de forma mais intensa durante o espetáculo: alguns personagens são representados por pessoas da platéia, chegando a participar, inclusive, de uma ceia na casa das irmãs, onde se passa a ação.

           O cenário econômico – praticamente inexistente – e a discreta execução ao vivo das canções, aliados a uma luz aberta na maior parte do tempo, possibilitam o completo foco do espetáculo nas atrizes, que interpretam com maestria cada uma das protagonistas. A busca por algo que dê um sentido à vida cotidiana é o que aflige essas três irmãs, que se sentem reclusas na provinciana cidade onde vivem. O diálogo é estabelecido diretamente com o público.

            As deformações físicas que as personagens assumem revelam, de forma metafórica, um estado de fragilidade poética compartilhada por toda humanidade. Esse compartilhamento se revela ainda no momento de fazer os pedidos: são várias velas no bolo de aniversário e, além das personagens, alguns espectadores também têm a oportunidade de fazerem pedidos e soprarem velinhas.

tres-irmas.jpg             Permeada por uma poesia enriquecedora, a montagem trata de questões intrínsecas à própria condição do homem enquanto ser perene. A facilidade com que As Três Irmãs consegue encantar o público deve-se justamente a essa simplicidade no trato de temas filosóficos que não são tão simples quanto parecem. Apesar de soar um tanto quanto caricatural demais, o mérito da diretora Consentino em tratar dessas questões, a partir do texto de Tchékhov e da maneira como foram tratadas, deve ser ressaltado e é digno de todos os aplausos.