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Contrariando o que diz o título… Nada desastroso 

Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Leila Freitas e Maria de Jesus Baccarelli dão vida à mesma pessoa: Sofia ou Clarice Lispector. Em Os desastres de Sofia, ocorre uma espécie de transmutação da personagem, com um resgate da escritora. As atrizes permutam as várias facetas de uma menina safadinha que, aos nove anos de idade, se apaixona pelo professor e estabelece uma relação contraditória e conflituosa com seu objeto de admiração e implicância – o qual acaba por lhe provocar a decepção nos adultos.

sofia.jpg           Ivana Moura e Lúcia Machado levam à cena a poética intimista de Clarice Lispector. E o fazem de modo a permitir um completo enlevamento por parte da platéia. A trilha sonora de Anatálio Teixeira desempenha um importante e discreto papel nessa enlevação. O figurino elegante contrasta com a cenografia de madeira e cordas, ambos assinados por Beth Gaudêncio. Os três níveis do cenário e a movimentação que possibilita às atrizes em determinado momento do espetáculo são questionáveis. Assim como a iluminação de Saulo Uchôa, por vezes, um tanto confusa, mas muito bem executada.

           O texto de Clarice encanta pela simplicidade e pela sensação de liberdade que causa ao espectador/leitor. Liberdade essa que, necessariamente, não se alcança correndo de um lado para o outro ou subindo e descendo escadas. Ainda assim, Os desastres de Sofia não se mostra nenhum pouco desastroso.

           A narrativa em tom memorialista coloca as duas atrizes em posições contrárias: ora como espectadora, ora como contadora da história. E a partir das falas de cada uma mesma personagem – que é também espectadora de si mesma –, vai se descobrindo a menina Sofia e o tesouro que esconde. Quando desvendado pelo professor amado, é esse tesouro que vai provocar um entusiasmo por parte dele e a perda de fé nos adultos por parte dela. As interpretações primorosas encantam o público, prazeroso de poder ver no placo o talento inquestionável de Maria de Jesus Baccarelli em companhia de Leila Freitas.

sofia2.jpg            As dúvidas e descobertas de Sofia são compartilhadas e assimiladas sem nenhum esforço pela platéia. Como o vai-e-vem de um balanço, o texto de Lispector arremata de tal forma quem o escuta que não se deseja que o movimento pare. Nesse sentido, Ivana Moura e Lúcia Machado souberam conduzir o balanço com louvor, apresentando um espetáculo de peculiar encanto e beleza.