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Maravilhosamente entediada

  Por George Carvalho 

recomendadoteatro.jpg          Tradução de Rubem Fonseca, direção de Walter Lima Júnior e um elenco primoroso. O resultado da montagem da peça Hedda Gabler, de Henrik Johan Ibsen, não podia ser mais acertado. A pernambucana Virgínia Cavendish surpreende no papel-título, representando uma mulher inconformada, à frente de seu tempo, mas que não tem coragem de romper as barreiras sociais. Como conseqüência, um tédio mortal – literalmente – que assola a personagem levando-a a provocar, indiretamente, a morte de seu ex-amante e a sua própria morte. 

            O trabalho de luz apurado é outra característica marcante da montagem do diretor cinematográfico Walter Lima Jr., em sua quarta experiência teatral. Na busca por estabelecer uma atmosfera dramática, a cenografia de Hélio Eichbauer deixa a desejar, contrapondo com a iluminação assinada por Wagner Pinto. O figurino de Marcelo Pies é notável: todos os personagens estão muito bem caracterizados. 

heddagabbler.jpg           A direção do espetáculo é muito bem conduzida e peca apenas na dose de maldade do Juiz, que poderia ser mais carregada, de modo a justificar ainda mais o suicídio de Hedda – não que o tédio de sua vida já não seja o suficiente para motivar sua atitude. Cavendish está esplêndida e muito confortável interpretando Hedda Gabler. O restante do elenco não fica atrás: Júlia Miranda, Ivone Hoffman – 40 anos de palco –, Charles Fricks, Luciano Chirolli, Roberta Arantes e Joelson Medeiros – ex-Teatro da Vertigem – completam o time. 

          Hedda Gabler foi publicada em 1890 e é considerada a última grande peça experimental realista do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. É quando uma mulher assume, pela primeira vez, o papel de sujeito, sendo o personagem-título protagonista da ação. A narrativa se passa na Europa do final do século XIX e é permeada por um tom dramático e irônico peculiar. O texto surpreende pela força e pela capacidade de manter-se atemporal – o que faz dele um clássico. 

           A estranheza e dubiedade de Gabler, contrariando todo o esforço dos que a rodeiam, é um desafio à compreensão da complexa alma humana. Essa é uma característica comum nos textos de Ibsen, o qual consegue retratar, de maneira singular, o conflito existencial e psicológico das suas personagens, investigando a fundo o caráter de cada uma. A Hedda Gabler de Cavendish é um exemplo disso: na montagem, a concepção moral da personagem de Ibsen transparece, determinando sua índole anti-romântica e fazendo com que ela vá de encontro aos seus instintos e desejos mais profundos em nome de convenções estabelecidas socialmente.