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Poesia sem palavras

 

Por George Carvalho


recomendadoteatro.jpg          A epopéia de uma família fadada ao exílio numa estética apurada que envolve elementos de teatro e dança. Quem teve a oportunidade de assistir ao espetáculo Saudade em terras d’água, na noite do último sábado (4), saiu do Teatro Apolo sem palavras. Elas eram desnecessárias, como ficou provado durante os quase noventa minutos de apresentação da Companhia Dos à Deux, dentro da programação do Festival Palco Giratório.


photo 022 - Xavier CANTAT          Questões sociais, como migração e pobreza, são abordadas de forma peculiar, numa montagem que trata também da relação inter-humana e do ser humano com o meio em que vive. Com um cenário extremamente funcional, a ação se passa numa espécie de não-lugar, contribuindo no estabelecimento de um tom universal à peça. Para isso, os encenadores André Curti e Artur Ribeiro optaram por uma dramaturgia baseada no gesto, constituindo um código próprio de linguagem que dispensa o uso de palavras.

 

          Mãe e filho – interpretados respectivamente por André e Arthur – vivem isolados no meio de um mar infinito. Uma existência simples, ritmada, cujo equilíbrio se vê quebrado quando uma terceira pessoa passa a fazer parte desse ciclo. Preocupada com a continuidade de uma vida cujo sustento provém do mar, a mãe parte em busca de uma mulher para seu filho. E eis que se estabelece o primeiro conflito. Inicialmente, no envolvimento entre o jovem casal, que nunca tinha se visto. Depois, na relação deste com a matriarca, marcada pelo ciúme da esposa – vivida por Lakko Okino.


          Tal qual o Mar de Aral – que está desaparecendo no continente asiático –, na peça Saudade em terras d’água o mar também seca, some numa concepção fantástica de iluminação e trilha sonora. Essa catástrofe acentua os problemas da família, que parte sem destino. Os conflitos agora giram em torno da busca pela sobrevivência da idosa e do casal à espera de um filho. Representado por um boneco de espuma, o “garoto” rouba a cena em alguns momentos.


441 - Xavier CANTAT          A musicalidade é um ponto forte do espetáculo, que levou cerca de um ano para ser concluído. A trilha sonora, assinada por Fernando Mota, é envolvente e pontua as ações. No entanto, esse foi um dos últimos elementos inseridos na montagem. A iluminação de Frédéric Ansquer também merece destaque e, aliada à trilha sonora, cumpre um papel fundamental. Mas o grande diferencial desse espetáculo é a construção de um universo bastante singular e, ao mesmo tempo, de abrangência plural, repleto de uma poesia rara que transborda sentimentos comuns a qualquer ser humano.