CineCrôica Recomenda            Com uma abertura de terceira e um início tímido, Não Por Acaso não diz para quê veio em seus primeiros minutos de exibição e deixa impaciente a audiência que aposta novamente no cinema brasileiro. Gradualmente o espectador começa não a ver, mas a sentir a proposta que se apresenta diante de seus olhos.

           Contando com uma direção de áudio mais do que competente, fotografia simples e efeitos visuais de bom gosto, o filme se firma em seu próprio drama, emociona e resgata boas interpretações de seus atores nos pequenos trejeitos e reações de cada personagem. Cada olhar, cada sorriso e cada posição de rosto são Não Por Acasoimportantes para compor o conjunto da obra, que muitas vezes recorre ao coloquialismo e simplicidade do cotidiano, grande trunfo no fim das contas.

           O slogan do longa é refletido em seus personagens: Ênio (Leonardo Medeiros), que controla os diversos ‘dois segundos’ que regem os semáforos de trânsito e Pedro (Rodrigo Santoro) que sente o peso da responsabilidade por estragos que ‘dois segundos’ podem causar em vidas alheias. O primeiro, vive o drama de reencontrar um amor do passado e vê-la morrer logo após convidá-lo a conhecer a filha dos dois. O último, herdeiro das habilidades de marcenaria de seu pai, tenta lidar com o recém-casamento interrompido por um acidente que atinge sua companheira.

O projeto ainda tem como destaque a sempre brilhante atuação de Cássia Kiss, numa participação especial, e a trilha sonora que mantém o exato clima almejado pela direção de Philippe Barcinski, que também assina o roteiro, e lança músicas pouco conhecidas do grande público, mas de alta qualidade. Mais do que um filme de grande apoio publicitário, Não Por Acaso garante emoção e simplicidade, que pode não mudar a vida do espectador, mas obriga-o a refletir sobre o assunto. Entretenimento certo.

“Somos todos partículas. Átomos. Elementos Químicos. Células nos locomovendo. E nós decidimos para onde vamos, temos o livre arbítrio, vamos para onde queremos, então temos fluxos bem mais complexos de se organizar. O modelo do trânsito é como o modelo matemático da dinâmica dos fluidos. Cada carro é como se fosse uma molécula de água. Menos carros, menos pressão, então o trânsito flui. Muitos carros, pouco espaço entre eles, muita pressão. Acontece que o trânsito não é apenas um cano, é um emaranhado de canos com milhares de carros correndo entre eles…”