CineCrtica Recomenda            Banido de seu antigo estúdio após o discutível fracasso de Missão Impossível 3, Tom Cruise investe pesado na reconstrução de um dos mais assombrados estúdios de Hollywood. A United Artists foi criada por Charlin Chaplin e desde então enfrenta sucessivos fracassos e falências. Não atrás de grandes públicos Cruise investe no prestigio como forma de restaurar a empresa da companhia e, por que não, a sua própria.
            Em Lions For Lambs, observamos basicamente dois filmes unidos em uma mesma linha temporal, que se unem a partir de um ponto em comum: uma notícia. Em um primeiro momento podemos observar o diálogo entre um senador (Cruise) e uma repórter veterana (Meryl Streep) que compõe o que deveria vir a ser uma reportagem exclusiva sobre a nova investida do Governo dos Estados Unidos na Guerra contra o Terror.
            Em outra parte do globo, estão dois soldados, Ernest e Arian,  que participarão da investida, que inclui a tomada de um pico estratégico no Afeganistão antes que a neve derreta, para impossibilitar a movimentação ‘inimiga’. As forças envolvidas passam a admitir que investida começa a dar errado ao ver que a tropa sofreu leoescordeiros.jpguma emboscada e os dois soldados se encontram sozinhos, feridos, na neve e em território afegão.
            Em um terceiro momento, o ex-professor universitário (Robert Redford) desses dois indivíduos se reúne com um aluno que julga promissor, Todd (Andrew Garfield), e trava um combate intelectual sobre o papel da ciência política na realidade social americana, afim de convencê-lo a fazer mais pelo próximo e por si próprio do que vem fazendo como presidente de fraternidade.
            Leões e Cordeiros não é, como vem sendo taxado, uma aula de política americana. Na verdade, não chega nem a ser uma crítica aos costumes da população dos Estados Unidos e não evidencia, de forma alguma, sua visão de superioridade para com os demais povos. Em suma, Leões e Cordeiros é um puro reflexo da discussão ética que envolve todos os profissionais ao se verem envolvidos com questões pessoais e culturais em um conflito problemático, por vezes, na vida. É um seqüenciamento verborrágico de como pensam mentes distintas não apenas quanto à guerra, plano de fundo da proposta, mas quanto a seus valores, suas ações e, em especial, seus discursos.
            Tecnicamente, o filme não desaponta. O que pode ficar a desejar em termos de efeitos visuais é compensado em fotografias inconstantes que permeiam os discursos acompanhando a variação de sentimentos proferidos pelos personagens, além de uma edição primorosa que intencionalmente provoca a audiência cada vez que uma mesma visão começa a ficar cansativa.
            As atuações sóbrias de Streep e Redford impressionam à medida em que até mesmo seus olhares servem não apenas para sugerir, mas para provocar reflexões mais intimistas nos espectadores do que as palavras do roteiro apresentado. Cruise está no filme de forma mais plástica, mais sisuda, contando a seu favor sua imagem já reconhecida e aprovada pelos espectadores mundo afora, apresentando uma atuação mais estável e contínua, que não exige muito do mesmo. A diferença do mesmo, pretenso protagonista da trama, para os atores da velha guarda do cinema é gritante, ao tempo em que a audiência acompanha cada respiração descompassada e têmpora saltada de Streep e Redford.
Na segunda leva de atores encontramos os já consagrados Derek Luke e Michael Peña que atuam de forma convincente, mas coadjuvante para compor a totalidade da obra e Garfield que ganha imenso destaque, dada a profundidade carismática de seu personagem Todd e a competência com a qual o ator se aproveita das nuances mais joviais de seu papel.
leoes2.jpg            O grande trunfo de Leões e Cordeiros é justamente não ser uma aula, como todos sempre tivemos. Mas se tornar um mestre, como todos sempre quisemos. Do estilo mais socrático possível, que não impõe uma visão, mas exige que você se posicione quanto a tudo, ao mesmo tempo em que esteja aberto a mudar de opinião no instante seguinte. O mérito está justamente nesse ponto, em que o filme serve como condutor de uma auto-reflexão que não necessariamente transporta o espectador para a situação proposta em tela, mas a adapta para as mais simples coisas da vida, ao ponto de culminar nas velhas máximas de “o que estou fazendo com a minha vida?” ou “tenho feito o suficiente pelo mundo no qual vivo?”.
            Talvez não fique claro a todos, mas uma imagem rápida e marcante se destaca das demais. É a sequência emblemática em que a jornalista XX (Streep) está em um táxi, refletindo sobre o que tinha ouvido e tentando descobrir o que fazer dado seu papel profissional, enquanto na janela da porta em que se encontra é refletida a imagem de centenas de epitáfios brancos de um cemitério em homenagem aos “heróis de guerra” em Washington. É nesses poucos segundos, marcados por uma adequada trilha, em que se faz a bandeira levantada pelo filme e que resume os esforços empregados: a de incomodar a audiência.
            Reside no incômodo o marfim da questão. Se não há incômodo, não há comoção e o filme não funciona. Aqueles que se julgam satisfeitos com sua participação no mundo ou indiferentes às mudanças que podem promover não desenvolvem ligação com a obra. Trata-se muito mais do que uma lembrança do 11 de setembro ou de uma questão política por petróleo. Não existe direita ou esquerda. Não existem democratas e liberais. PT ou DEM. O que existe, pura e cruamente, é um indivíduo que se encontra assistindo a um filme que sugere que ele não deveria estar assistindo a um filme, mas fazendo algo para consertar tudo o que ele se limita a criticar.
            A instigante construção do debate travado entre o professor Malley e seu aluno renderia um filme solo, com direito a aplausos ao final. Mas o filme não se propõe a aplausos ou meras convocações políticas, apenas, talvez, a alguns Oscars. O filme trata de escolhas, maiores e mais significativas do que decidir a qual filme você verá na próxima sessão, mas dos momentos mais delicados em que você pode passar à margem gozando de uma felicidade vazia e egoísta ou sofrer nadando contra a maré que move o mundo pós-moderno e contraditório que dividimos.

“Você não quer saber minha resposta?”
“Eu saberei na segunda de manhã, é o que importa”

E você? Conferiu? Gostou? Dormiu? Conta!