CineCrtica Recomenda          Não há nada de realmente novo em Eu Sou a Lenda, além da capacidade de um filme com zumbis se manter no topo das bilheterias e arrecadar mais de um quarto de milhão de dólares quase que burocraticamente. E, claro, possuir uma brasileira no elenco que realmente fala e reage.
          Na nova adaptação de I Am Legend (a terceira), romance Richard Matheson, podemos ver o ‘papa-carisma’ Will Smith no papel de Robert Neville, suposto único sobrevivente de uma peste que dizimou 99% da população mundial e transformou praticamente todos os demais em “caçadores das trevas”(zumbis). Por alguma razão desconhecida, Neville é imune e, cientista, passa a ser obcecado com a possibilidade de achar uma cura para a doença.
          Um dos pontos mais fortes na obra é a explicação lógica de como uma realidade mutante como a apresentada poderia ser real. A cientista Alice Krippin (Emma Thompson) alterou geneticamente vírus do sarampo de forma a torná-lo benéfico para os homens, atacando apenas células cancerígenas. A doença se manifesta seis meses depois como um efeito colateral ao remédio do câncer, passando a ser transmitida pelo contato e pelo o ar, o que iamlegend.jpgdizima bilhões de humanos.
          A obra possui diversos pontos altos, que a tornam distinta das demais produções hollywoodianas sobre o apocalipse, em especial a atuação quase orgânica de Smith, que leva o projeto nas costas durante pouco mais de uma hora, à la ‘Náufrago’. Além disso, o roteiro compassado e agonizante do roteirista Akiva Goldsman (Oscar de Roteiro por Uma Mente Brilhante) e a mão presente nos mínimos detalhes do diretor Francis Lawrence (mais conhecido pela direção de filmes como Constantine ou videoclipes da MTV de astros pop como Shakira e Britney Spears).
          Dois são os pontos que mais impressionam. O primeiro é a capacidade de prender a atenção da audiência por duas horas em uma história praticamente já conhecida e revisada várias vezes. O segundo é a ambientação monumental na cidade de Nova York, destruída, abandonada e literalmente entregue à natureza, com direito a grandes árvores e animais selvagens circulando pela quinta avenida. É no mínimo estranho observar a reprodução de cada detalhe da cidade às avessas, em grandes tomadas panorâmicas que apresentam um Central Park entregue às plantações e uma Times Square propícia para a caça.
          O grande trunfo do filme está em colocar o espectador junto a Smith, e no lugar dele, pensando no que faria na mesma situação em que se encontra. Eu Sou A Lenda tem a estranha capacidade de causar interação do público com os acontecimentos, como se o personagem da ‘telona’ pudesse ouvir os conselhos preocupados de um público que agoniza nos momentos de suspense e perseguição.
          O grande problema do filme está na fórmula clichê adotada para tratar alguns pontos, dos quais a supervalorização dos zumbis se destaca. Não se trata apenas de pessoas que passam a ignorar seus instintos de sobrevivência e a grunhir por sangue, mas de seres que têm capacidade lógica de aprender com seus erros e bolar planos mirabolantes, sem lapsos de memória ou interrupções intelectuais, dadas suas ‘condições’. O grupo, ainda e infelizmente, parece subordinado a um líder brutamontes que consegue criar armadilhas sensacionais e estratégias de ataque impressionantes, mas não está nem um pouco disposto a entender os mais simples sinais ou propostas de salvação… 
          Se as grandes tomadas inicialmente valorizam o amplo e distante para focar Nova York e o vazio para dar forma aos temores do protagonista (com direito a barulhos distantes e esconderijos simplificados), a partir do momento que os zumbis aparecem, a fotografia empobrece, sendo generosa nos detalhes da maquiagem e efeitos especiais em cada traço dos seres que aparecem, deixando de lado o interessante ‘desconhecido’ para apostar em closes generosos que contribuem, apenas, para desmistificar as criaturas, reduzindo seu poder de amedrontar a audiência.
          Ainda que apele para o arrasa-quarteirões clássico, com apelo de marketing e de composição visual, o filme é o típico entretenimento ‘poltrona e pipoca’ que agrada multidões, sem maiores pretensões filosóficas, apesar do viés religioso que marca seu clímax. Vale a pena destacar a simplicidade e competência de Alice Braga no elenco, que representa, de forma absoluta, uma alternativa ao estilo de vida com o qual o público se acostuma a imaginar durante quase toda a exibição do longa. Entretenimento garantido.

“Imagine um motorista embriagado dirigindo um carro em alta velocidade. Esse motorista pode machucar muitas pessoas, mas pensemos em um policial como uma pessoa boa e coloquemos ele no lugar do bêbado. A imagem muda de figura.”
“Quantos testes vocês já realizaram até o momento?”
“10.909”
“Quantos ficaram livres do câncer?”
“10.909”
“Então podemos dizer que vocês criaram uma cura para o câncer”
“Acredito que podemos dizer isso…”

E aí? O que achou? Esperava mais?